Em meados do século XVI, mais especificamente em 1536, uma aliança entre um estado cristão e o Império Otomano iria ocorrer, sendo posteriormente chamada de a “sacrílega união entre a lis e o crescente”1. A aliança em questão se demonstraria verdadeiramente duradoura, tendo uma longevidade de pouco mais de dois séculos e meio, tendo seu fim quando Napoleão Bonaparte realizou sua campanha ao Egito otomano em 1798-1801.

A aliança franco-otomana de 1536, tida também como a primeira aliança não ideológica entre um Estado cristão e um muçulmano, teve um papel de suma importância no episódio que ficou conhecido como Guerras Italianas, uma longa série de guerras entre 1494-1559 durante o período Renascentista.

Logo após a conquista de Constantinopla pelo sultão Mehmed II em 1453 e a unificação das faixas do Oriente Médio por Selim I, o filho de Selim, o sultão Suleiman, o Magnífico, iria expandir os domínios otomanos para a Sérvia, entrando em conflito com o Império Habsburgo.

As relações entre otomanos e franceses já vinham sendo construídas desde algumas décadas antes, e não surgindo de repente em 1536. Em 1483, por exemplo, Bayezid II enviaria uma embaixada para o rei francês Luís XI para assegurar que seu irmão Djem, rival ao trono, estava sendo mantido pelo governo francês. Entretanto, Luís se recusou a receber os enviados do sultão, mas acabou sendo presenteado mesmo assim com uma quantia considerável em dinheiro e também em relíquias cristãs que estavam sob o Império Otomano com a finalidade de que Djem fosse mantido sob custódia francesa. Mais tarde em 1489 o irmão do sultão seria transferido para ficar sob a custódia do papa, que na época era Inocêncio VIII.

A França assinou um primeiro tratado ou Capitulação com o Sultanato Mameluco do Egito em 1500, durante os reinados de Luís XII e do Sultão Bayezid II, em que o Sultão do Egito fez concessões aos franceses e catalães, e que mais tarde seria estendido por Suleiman.

Durante esse período a França procurava aliados na Europa, principalmente na Europa Central. Nesse sentido, um embaixador francês chamado Antonio Rincon foi contratado pelo rei Francisco I (o “Rei-Cavaleiro”) para missões diplomáticas na Polônia e também na Hungria entre os anos de 1522 e 1525. Nessa época, uma aliança com a Polônia de Sigismundo I seria muito bem-vinda, principalmente após a batalha de Bicocca de 1522 nas Guerras Italianas.

A procura de Francisco por um aliado na Europa Central se intensificaria ainda mais quando os franceses foram derrotados na batalha de Pavia (1525) pelo imperador Carlos V. Por conta da derrota, Francisco passou vários meses na prisão, sendo forçado a assinar o Tratado de Madri, renunciando assim o Ducado da Borgonha e a região de Charolais ao Império, renunciando à qualquer ambição que tinha em terras italianas, devolvendo também seus pertences e honrarias ao Condestável de Bourbon, Carlos III. Por conta disso, necessitando de um aliado poderoso contra o Império Habsburgo, Francisco I procurou por Suleiman, o Magnífico, sultão Otomano.

A primeira tentativa para estabelecer a aliança entre Francos e Otomanos se deu quando o rei Francisco I ainda estava preso em Madri, sendo que uma comissão foi enviada para Suleiman logo após a derrota da batalha de Pavia. Entretanto, quem a enviaria não seria Francisco, mas sim sua mãe, Louise de Savoie, porém a missão seria perdida em meio do caminho na Bósnia.

Mais tarde, em 1525, outra tentativa seria feita, dessa vez o enviado seria João Frangipani, que conseguiria chegar até Constantinopla (capital otomana) juntamente com suas cartas secretas pedindo pela libertação de Francisco e também um ataque contra a Casa de Habsburgo. Já em 6 de fevereiro de 1526, João voltaria com uma resposta de Suleiman para casa, contendo os seguintes dizeres:

Eu que sou o Sultão dos Sultões, o soberano dos soberanos, o dispensador de coroas aos monarcas na face da terra, a sombra de Deus na Terra, o Sultão e senhor soberano do Mar Mediterrâneo e do Mar Negro, de Rumelia e da Anatólia, de Karamania, da terra dos romanos, de Dhulkadria, de Diyarbakir, do Curdistão, do Azerbaijão, da Pérsia, de Damasco, de Aleppo, do Cairo, de Meca, de Medina, de Jerusalém, de toda Arábia, do Iêmen e de muitas outras terras que meus nobres antepassados ​​e meus gloriosos ancestrais (que Deus ilumine seus túmulos!) Conquistaram pela força de suas armas e que minha Majestade Augusta sujeitou à minha espada exuberante e à minha vitoriosa lâmina, eu, Sultão Suleiman Khan, filho do Sultão Selim Khan, filho do Sultão Bayezid Khan: Para ti que és Francisco, rei da província da França…Você enviou à minha porta, refúgio dos soberanos, uma carta pela mão de seu fiel servo Frangipani, e você, além disso, confiou a ele uma miscelânea de comunicações verbais. Você me informou que o inimigo invadiu seu país e que você está atualmente na prisão e cativo, e você pediu ajuda e socorros para sua libertação. Todas essas suas palavras foram apresentadas ao pé do meu trono, que controla o mundo. Sua situação ganhou minha compreensão imperial em todos os detalhes, e considerei tudo isso. Não há nada de surpreendente em imperadores serem derrotados e feitos cativos. Então, tenha coragem e não desanime. Nossos gloriosos predecessores e nossos ilustres ancestrais (que Deus ilumine seus túmulos!) nunca cessaram de fazer a guerra para repelir o inimigo e conquistar suas terras. Nós mesmos seguimos seus passos e conquistamos em todos os tempos províncias e cidadelas de grande força e de difícil acesso. Noite e dia nosso cavalo é selado e nosso sabre cingido. Que o Deus nas Alturas promova a justiça! Que tudo o que for de Sua vontade seja realizado! De resto, questione o seu embaixador e fique informado. Saiba que será como foi dito.

Na ocasião, Francisco usou como pretexto a proteção dos cristãos em território otomano através dos acordos conhecidos como “Capitulações do Império Otomano”.

O pedido de ajuda de Francisco I correspondia às ambições do sultão relativas à Europa, incentivando o ataque otomano na a Hungria em 1526, ocasionando o episódio que ficou conhecido como a Batalha de Mohács no dia 29 de agosto contra o exército do Reino da Hungria chefiado por Luís II.

Enquanto isso, os inimigos de França e dos Otomanos também recorria a alianças contra seus adversários, como é o caso de Carlos V entrando em negociações com a dinastia Safávida para que assim fosse possível realizar um ataque nos flancos otomanos. Dessa maneira, Carlos enviou emissários para o xá Tahmasp I em 1525 e 1529 pedindo para que atacasse o Império Otomano.

Em 1528 durante a Guerra da Liga de Cognac, Francisco I finalmente conseguiria seu aliado na Europa, dessa vez se trataria do rei húngaro João Zápolya, que por sinal havia acabado de se tornar vassalo do Império Otomano. No mesmo ano Francisco voltaria a entrar em contato com Suleiman, dessa vez valendo-se de mesmo pretexto a respeito da proteção dos cristãos, pedindo inclusive que o sultão transformasse uma mesquita novamente em uma igreja cristã, o que foi negado educadamente por Suleiman, que prometeria garantir proteção para os cristãos em seu território.

Alguns anos depois, no começo de julho de 1532, as relações entre o sultão e o rei francês iriam se tornar mais próximas ainda, pois Suleiman se encontrou com o embaixador Antonio Rincon em Belgrado, capital da Sérvia. Assim, o embaixador do serviço francês presenteou o sultão com uma grande e caríssima tiara de quatro camadas feita em Veneza. Além disso, foi preservado os escritos de Rincon sobre o acampamento otomano:

Ordem surpreendente, sem violência. Comerciantes, até mulheres, indo e vindo em perfeita segurança, como em uma cidade europeia. A vida tão segura, tão ampla e fácil quanto em Veneza. Justiça administrada de maneira tão justa que alguém fica tentado a acreditar que os turcos agora se tornaram cristãos e que os cristãos se tornaram turcos.

 

Em 1533 e 1534 embaixadas otomanas foram enviadas à França, sendo que a primeira foi liderada por ninguém menos que o lendário almirante otomano, Hayreddin Barbarossa. Já em 1534 a embaixada seria liderada por representantes de Suleiman.

Ainda no que diz respeito ao almirante Otomano, o sultão deixaria Barbarossa à disposição de Francisco I para que atacasse Gênova e o Ducado de Milão, sob as ordens de que ele “não deveria abandonar o Rei da França, que era seu irmão”.

Assim, em 1534 uma frota otomana navegaria contra o Império Habsburgo ao pedido do rei Francisco, saqueando a costa italiana e posteriormente se encontrando com os representantes do rei francês no sul da França. Indo mais além, a frota ainda tomaria Túnis do domínio espanhol, liderada pelo corsário judeu-otomano Sinan Reis. Após a conquista em 1534, os otomanos continuaram suas incursões na costa italiana junto com apoio francês, até que perdessem novamente Túnis para Carlos V no ano seguinte.

Após a derrota sofrida em 1535 pelas forças comandadas por Andrea Doria em Túnis, isso motivou que os Otomanos formalizassem suas relações com os franceses. Dessa maneira, o embaixador Jean de la Forêt foi enviado para Istambul (Constantinopla), se tornando o embaixador permanente na corte Otomana para negociar os tratados entre os dois reinos.

O trabalho de la Forêt foi um sucesso para o lado francês, pois em 1536 o mesmo negociaria importantes capitulações que concederiam inúmeras vantagens para França. Essas capitulações permitiram aos franceses obter importantes privilégios, como a segurança do povo e dos bens, extraterritorialidade, liberdade de transporte e venda de bens. Esses acordos ainda dariam aos franceses um quase monopólio comercial em cidades portuárias que seriam conhecidas como les Echelles du Levant. Além disso, os navios estrangeiros tinham que negociar com a Turquia sob a bandeira francesa, após o pagamento de uma percentagem do seu comércio.

Uma embaixada francesa juntamente com uma igreja seriam erigidas em Galata, um distrito de Istambul. Os franceses também receberiam vários benefícios comerciais, como trocar livremente em todos os portos Otomanos. Os franceses ficariam livres para praticar sua religião em território otomano, assim como os católicos receberiam a custódia de locais sagrados sob domínio imperial.

No âmbito militar, as negociações de la Forêt resultariam também em ataques combinados contra os italianos. Dessa vez em 1535, enquanto os franceses atacavam a Lombaria, os otomanos atacariam Nápoles. O sultão chegou inclusive a ajudar financeiramente o rei Francisco I com 100 mil peças de ouro com o objetivo de formar uma coalizão com os Ingleses e Alemães contra Carlos V. Ainda em 1535, Francisco pediria por mais 1 milhão de ducados à Suleiman, dando as seguintes ordens militares para la Forêt:

Jean de la Forest, que o rei envia para se encontrar com o Grande Signor [Suleiman, o Magnífico], irá primeiro de Marselha a Túnis, na Barbária, para se encontrar com o senhor Haradin, rei de Argel, que o encaminhará ao Grande Signor. Para tanto, no próximo verão, ele [o rei da França] enviará a força militar que se prepara para recuperar o que injustamente ocupou pelo duque de Sabóia e, a partir daí, atacar os genoveses. Este rei Francisco I ora veementemente ao senhor Haradin, que tem uma força naval poderosa e também uma localização conveniente [Tunísia], para atacar a ilha da Córsega e outras terras, locais, cidades, navios e súditos de Gênova, e não parar até eles aceitaram e reconheceram o rei da França. O Rei, além da força terrestre acima, ajudará adicionalmente com sua força naval, que compreenderá pelo menos 50 embarcações, das quais 30 galés, e o restante galeaças e outras embarcações, acompanhadas por uma das maiores e mais belas carracas de todos os tempos que já esteve no mar. Esta frota irá acompanhar e escoltar o exército do senhor Haradin, que também será revigorado e fornecido com alimentos e munições pelo Rei, que, por essas ações, será capaz de atingir seus objetivos, pelos quais ele será muito grato ao senhor Haradin. … Ao Grande Signor, Monsieur de La Forest deve pedir 1 milhão em ouro, e que seu exército entre primeiro na Sicília e na Sardenha e lá estabeleça um rei a quem La Forest nomeará, uma pessoa que tem crédito e conhece bem essas ilhas que ele vai manter na devoção e sob a sombra e apoio do rei [da França]. Além disso, ele reconhecerá esta bênção e enviará tributo e pensão ao Grande Signor para recompensá-lo pelo apoio financeiro que terá fornecido ao Rei, bem como o apoio de sua marinha, que será totalmente assistida pelo Rei [de França].

Suleiman acabaria intervindo na política europeia, enviando inclusive uma carta aos príncipes protestantes da Alemanha para que se aliassem com Francisco I contra um inimigo em comum, Carlos V. Assim, em 1535 Francisco se aliaria com a Liga Schmalkaldic contra o Império Habsburgo.

As relações entre francos e otomanos seriam ainda muito mais extensas, durando por mais séculos em diante, como por exemplo campanhas militares entre 1536-1538, onde veríamos novamente a atuação de Hayreddin Barbarossa e também de Sinan Reis, inclusive na famosa Batalha de Preveza, a principal atuação militar do corsário judeu, braço direito de Barbarossa.

Em 1538, por incrível que pareça, Francisco I e Carlos V fariam um acordo de paz no episódio que ficou conhecido como Tratado de Nice, concordando em se aliarem contra os otomanos e expulsá-los da Hungria. Dessa maneira, Carlos V voltaria sua atenção em batalhar contra os otomanos, apesar de não poder focar totalmente nisso, uma vez que travava seus próprios conflitos contra os príncipes alemães da Liga Schmalkaldic.

Em 28 de setembro de 1538, Barbarosa venceu a batalha principal de Preveza contra a frota imperial. No final do conflito, Suleiman estabeleceu como condição para a paz com Carlos V que este devolvesse para Francisco I as terras que eram suas por direito. As relações entre França e Império Otomano ficariam um pouco abaladas devido à mudança francesa de 1538, porém as relações entre Francisco e Carlos voltariam ao clima habitual de conflitos em 1452 com a retomada da aliança franco-otomana, principalmente por conta do assassinato do embaixador Antonio Rincon enquanto o mesmo viajava pela Itália.

Entretanto, não seria somente os Otomanos a ajudar os Franceses, mas o contrário também iria ocorrer. Exemplo disso foi a ajuda francesa nas guerras Otomanas-Safávidas (1532-1555), principalmente na campanha de 1547 onde o embaixador francês Gabriel de Leutz daria um conselho decisivo para Suleiman, ocasionando na vitória otomana sobre a dinastia Safávida.

A aliança entre os dois Estados deixaria um legado não só nas relações entre cristãos e muçulmanos, mas também no âmbito diplomático, cultural, intelectual e militar. Graças ao acordo entre otomanos e franceses que Carlos V não conseguiu subjugar a França, e em contrapartida acabou inclusive ajudando o protestantismo alemão.

Um ocorrido interessante foi durante a estadia de Barbarossa em Toulon (1543-1544). A estadia na cidade foi oferecida pelo rei Francisco I para que os otomanos continuassem seus ataques contra o Sacro Império Romano-Germânico, principalmente nas áreas referentes à costa da Espanha e Itália, facilitando também a comunicação entre Otomanos e Franceses. Assim, Francisco disse para o seu tenente da província:

Hospede o Senhor Barbarossa enviado ao rei pelo Grande Turco, com seu exército turco e grands seigneurs [grandes senhores] com o número de 30.000 combatentes durante o inverno em sua cidade e porto de Toulon…para a acomodação do dito exército, bem como o bem-estar de toda a sua costa, não será adequado para os habitantes de Toulon permanecer e se misturar com a nação turca, por causa das dificuldades que podem surgir.

Também com autorização de Francisco, a catedral da cidade foi transformada em mesquita, onde o chamado islâmico para a oração (adhan) poderia ser ouvido cinco vezes ao dia.  A cidade seria ainda utilizada como base para os ataques otomanos em várias cidades costeiras italianas ao ponto de derrotarem as frotas navais ítalo-hispânicas. Os otomanos sairiam de sua base em Tolon em maio de 1544 após o pagamento de 800 mil escudos (antiga moeda francesa) para Barbarossa.

As relações entre otomanos e franceses, tida como “profana” por se tratar de contatos amistosos entre muçulmanos e cristãos serviu como motivo de chacota por alguns na época, havendo inclusive a criação de caricaturas para zombar do rei francês.

Apesar disso, as relações continuariam mais tarde com Henrique IV, Luís XIV, Luís XV e demais monarcas franceses e otomanos, gerando em acordos diplomáticos, estabelecimentos de embaixadas e grandes trocas culturais. Essas relações veriam seu fim após as invasões napoleônicas no Egito, mas em 1860 outra aproximação ocorreria, dessa vez na Síria, onde a França interveria em território Otomano (com a concordância otomana) com o objetivo de proteger a população local de cristãos maronitas.

NOTAS

[1] A frase é de Burckhardt, referindo-se à heráldica francesa de uma flor-de-lis da época monárquica, juntamente com o símbolo da lua crescente do brasão Otomano.

BIBLIOGRAFIA

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