Todos sabemos que os muçulmanos, enquanto a religião mais praticada do mundo, estão espalhados por todo o globo, do Alasca ao Japão. Apesar disso, há lugares que nunca nem imaginaríamos haver muçulmanos – mas ainda assim, há –. E não apenas “há” uma presença, como também há uma variedade curiosa e única de histórias e tradições, especialmente quando estamos tratando de locais “isolados”. Hoje, trataremos exatamente de um caso assim; uma comunidade muçulmana única, quase desconhecida, mas com uma história única e exemplar não apenas de exercício da religião do Islã e seus preceitos, mas também de coexistência pacífica e amigável com a comunidade religiosa majoritária anterior, um padrão contínuo na história da religião. Neste texto, falaremos dos khaches, a pequena, mas ímpar, comunidade muçulmana do Tibet.

Nas icônicas, altas e frias montanhas da cordilheira do Himalaia, o coração da religião Budista, erguem-se monastérios tanto budistas quanto bön (uma religião sincrética que mistura elementos do budismo com práticas xamânicas nativas dos tibetanos). Além disso ergue-se, também, em Lhasa, na capital do Tibete, algo que não esperaríamos ver por lá: mesquitas, açougues halal e cemitério islâmico. Esses poucos sítios são a singela lembrança de uma comunidade secular cuja presença remonta, no mínimo, ao século XIV da Era Comum.

A Grande Mesquita de Lhasa, construída em 1716.

Os muçulmanos do Tibete têm suas possíveis origens mais remotas em mercadores árabes que, após a expansão em direção ao Leste (cujo ponto de maior destaque foi a incursão árabe na bacia do Tarim, que culminou na Batalha do Rio Talas entre as forças árabes e o Império Tang no século VII). Esses mercadores muito provavelmente se estabeleceram ao redor da região, podendo alguns terem mesmo se movido para o Tibete próprio. De qualquer forma, a maioria destes mercadores se estabeleceram nas regiões vizinhas (e menos montanhosas) da Caxemiram e o Ladakh, eventualmente migrando em direção ao Leste, para dentro dos picos nevados dos Himalaias.

A primeira grande migração de fato aconteceu em meados do século XVII, quando devido à uma epidemia de fome na região dos vales da Caxemira, além de constantes instabilidades e mudanças ´políticas, típicas da região no período pós-mongol, muitos muçulmanos (lá presentes desde o século XIV, tanto nativos quanto imigrantes) tomaram o caminho íngreme até o centro do Tibete.

Uma vez lá, o Quinto Dalai Lama (que havia chegado ao poder total através de meios violentos e belicosos, inclusive se usando de crenças budistas para tal) concedeu a essas muçulmanos - em sua grande maioria comerciantes - certos privilégios especiais, evidenciando não apenas uma política de tolerância mas de coexistência religiosa. Os muçulmanos foram agraciados com autonomia comunitária, isto é, não apenas poderiam ter e escolher seus próprios representantes em um conselho autônomo que cuidaria das questões internas da comunidade islâmica, como teriam autorização para resolverem suas questões intra-comunitárias segundo a própria Lei Islâmica (a Shariah). Além disso, os muçulmanos estariam isentos de terem de seguir práticas e costumes budistas disseminados por toda a sociedade tibetana da época, como não comer carne no mês sagrado de Sakadawa, além de contruírem templos e cemitérios próprios. Essa comunidade ficou conhecida como Khache. O povo kashmiri via via o Tibete como uma zona segura livre da politicagem dos Estados indianos que conflitavam um contra o outro e de uma vida de estresse e materialismo mundanos, onde também não não haviam castas ou diferenças comunitárias fortes como nas áreas do Norte da Índia -  sistemas essas que os muçulmanos energicamente combateram-. Assim que chegaram a Lhasa, o casamento misto ocorreu entre homens da Caxemira e Mulheres budistas que posteriormente se converteriam ao Islã.

Os khaches de Lhasa, todavia, fizeram também muitas contribuições para a cultura tibetana, num movimento mútuo de legítimo e belo intercâmbio cultural: religião, literatura, vestuário, cozinha. Todos estes aspectos os muçulmanos ou influenciaram ou foram influenciados, de modo que houvesse o surgimente, assim como no caso da China, de uma cultura muçulmana “tibetana” de facto. Na religião, havia a amizade entre os clérigos muçulmanos e os bhikkus (monges) budistas, de modo que os conselhos e exortações morais e religiosas dos imãs, assim como suas opiniões, eram tidas em alta estima pela sangha (comunidade monástica) budista de Lhasa. Dentro da área de vestuário, os khache adotaram roupas de estilo tibetano - as mulheres em particular tinham uma reputação de trajar-se com vestidos tradicionais do colorido estilo tibetano chamados de chu-bas em festivais e eventos sociais, inovando apenas nas coberturas de suas cabeças, isto é, os véus: geralmente véus claros e de seda vinda da China, ao lado. muitos dos homens usavam bonés bordados brancos chamados de sozenis, assim como seus vizinhos budistas. Nas artes da literatura e da música, também houve legado islâmico: acredita-se que um livro de aforismos bem conhecido, o Khache Phalu, tenha sido escrito por um membro erudito do muçulmanos de Lhasa chamado Faidhullah; na música, s muçulmanos de Lhasa também introduziram um estilo popular  no Tibete por volta do século XIX chamado nangma, o que contribuiu para a fama dos muçulmanos como excelentes músicos, com os menestréis khaches sendo convidados quase sem falta para as celebrações de Estado e da Aristocracia budista.

Entrada de uma antiga mesquita em Lhasa, 1991.

Como era de se esperar de uma religiosidade advinda da região de Caxemira, que foi islamizada pelos santos sufis e seus murids, os khache, sim, detinham uma tradiçã permeada pelo sufismo, principalmente na prática da “magia branca” e na reverência aos santos (walis). Dentre as figuras reverenciadas pelos khache, podemos citar particularmente Khair-ud-Din, o fundador mítico de sua comunidade (khaches) que teve alegadamente um encontro mágico com o Quinto Dalai Lama. Depois que Khair-ud-din rejeitou vários convites feitos para se encontrar com o Dalai Lama, que observou o sábio muçulmano em uma montanha de frente para o Palácio de Potala (a residência régia do Dalai Lama), o Dalai Lama tentou confrontar Khair-ud-din diretamente. Como Khair-ud-din viu o Dalai Lama se aproximando, ele se transformou em pomba e voou para sua terra natal de Patna em Bihar (atualmente na Índia). Mas depois que ele fez isso, o Dalai Lama se transformou em um falcão e começou a persegui-lo. Assim que o santo entrou na Índia, ele informou o Dalai Lama: “Você atingiu seu limite. Volte! Caso contrário, sua força desaparecerá.” O Dalai Lama retornou imediatamente ao Tibete. Depois que Khair-ud-din chegou a Patna, ele foi repreendido por seus murshids (gurus, mestres), que argumentaram que se o ele tivesse se encontrado com o Dalai Lama, talvez o líder budista teria se convertido ao Islã, abrindo caminho para a islamização do Tibete. Neste mesmo relato, há o claríssimo uso de temas sufis, como as disputas de magia entre mestres sufis e figuras religiosas locais, visando a conversão dos nativos ao Islã através da derrota dos não-muçulmanos pelo Pir, o guia espiritual, e, como já pudemos ver, o recorrente tema da associação de homens santos com os pássaros.

Na área econômica veio, juntamente com essa imigração e estabelecimento bem-sucedido, a adoção de "relações públicas", assim podemos dizer, entre as comunidades, veio também o estabelecimento de relações comerciais entre os comercianetes de Ladakh (a região oriental da Caxemira, de onde vinham a maior parte destes imigrantes, inclusive) e o Reino do Tibete, com a troca de delegações comerciais. Nesse contexto, os khache começaram a ficar cada vez mais ligados à elite budista-teocrática de Lhasa, formando uma espécie de “burguesia” na cidade, que fazia principalmente o intercâmbio das commodities tibetanas para com os artigos de luxo vindos da Índia, da Pérsia e do Mundo Árabe, materiais que incluíam lã, almíscar e sal, que trocavam na Índia por xales, panos, saron, frutas secas, jóias, ervas medicinais e ouro. Eles forneceram, assim, mercados para produtos tibetanos no exterior ao mesmo tempo que muniam a elite local de sofisticação.

O time de futebol Lhasa United, formado por muçulmanos tibetanos, nepaleses e ladakhis, fotografado pelo diplomata britânico Frederick Spencer Chapman em 1936,

Nesse mesmo período de tempo, uma outra migração vinha rumo ao Tibete, mas eram outro grupo étnico vindo de outra direção: muçulmanos Hui (chineses) que vinham da região de Ningxia, na atual China, fazendo seu caminho em direção ao Leste para o Tibete Central (chamado em tibetano de Ü-Tsang), notadamente para Lhasa. É curioso notar que essas comundiades, apesar de se darem extremamente bem e serem deveras cordiais, não se misturam, repetindo inclusive um padrão visto no Xinjiang entre Huis e Uigures: apesar de serem muçulmanos, não se misturam. Desse modo, cada um detinha suas mesquitas, casas de abate, cemitério e escolas.

Uma outra onda de imigração muçulmana, advinda da Caxemira, dirigiu-se à parte Sul das cordilheiras do Himalaia, onde hoje é o pequeno país de maioria hindu do Nepal. Lá se estabeleceram até serem expulsos pelo rei hindu Prithvi Narayan (prenunciando as tensas relações entre hindus e muçulmanos que tomariam lugar ao longo da história recente), após sua sangrenta conquista do vale de Kathmandu (atual capital da nação nepalesa) em 1769, conquista essa que dizimou enorme parte da populção da região (especialmente de homens) e causou uma bizarra "escassez de população". Em 1841, o exército Dogra da Caxemira invadiu o Tibete. Após sua derrota, muitos dos soldados muçulmanos da Caxemira e Ladakhi que foram feitos prisioneiros optaram por ficar para trás. Alguns dos prisioneiros hindus de Dogra também optaram por se estabelecer no Tibete e lá abraçaram o Islã, juntando-se à comunidade khache. Eles introduziram o cultivo de damascos e maçãs no país.

O Tibete quase intocado mediante a turbulenta e sangrenta guerra civil e instabilidade política que dominou a China (o ex-Império Qing, ao qual o Tibete, autônomo até certo ponto, era tributário), conquistando a Indepêndencia após a independência da Monarquia dos Qing até a ascensão da República Popular da China, com sua vitória na Guerra Civil Chinesa e posterior invasão do Tibete. Por ocasião da conquista do Tibete em 1959 e da imposição do governo e a ascensão ao poder do Partido Comunista Chinês (PCCh) no Tibete, a maioria dos muçulmanos khaches, assim como o Dalai Lama, empreenderam uma migração em massa de Lhasa para a Índia. Após a derrubada do governo de Lhasa pelas forças comunistas chinesas e a turbulência que se seguiudo ocorrido, os khache foram forçados a repensar suas identidades nacionais. As circunstâncias os forçaram a escolher entre uma identidade nacional tibetana ou optar pela cidadania indiana com base na sua ascendência da Caxemira. Sob o novo regime, os Khache viram sua escolha de nacionalidade como vital para o preservação de sua identidade muçulmana e comunitária. A agitação política e social no Tibete de 1959 forçou esses tibetanos Muçulmanos a priorizar se considera-se-iam tibetanos ou muçulmanos. A resposta da comunidade ao traumático evento de 1959 demonstra as complexidades que permeiam a própria questão tibetana em si, cujo nacionalismo independenista de Pequim é quase que indissociável da religão Budista Vajrayana.

No início dos anos 2000, um Imã muçulmano que emigrou para Índia, à época vivendo em Srinagar, na Índia, foi entrevistado para uma artigo acadêmico sobre os khaches, onde relatou a respeito da convivência contrastante entre os muçulmanos para com os budistas tibetanos e os muçulmanos e os hindus indianos:

“Quando eu morava em Lhasa, a vida era muito tranquila. Havia liberdade total... não havia tensão [religiosa] como temos na Índia. Não havia sentimento comunitário entre duas pessoas. Havia apenas duas religiões: budismo e islamismo... no Tibete não havia brecha entre budistas e muçulmanos. Nós nos considerávemos como membros de uma família. Se havia algum problema, costumávamos ir e perguntar sobre isso. Se nossa família estivesse tendo algum problema, os budistas vinham e perguntavam e nos ajudavam a resolver nossos problemas. Estávamos vivendo muito felizes entre nós. Quando saímos do Tibete, nossos vizinhos, embora fossem budistas, vieram até nós, chorando e perguntando: ‘Por que você está indo para a Índia? Por favor, fiquem conosco’."

Apesar dessa nova imigração em direção à Índia para escapar da opressão comunista (que foi especialmente feroz na década de 60 que se seguiria à conquista do Tibete, em 59), alguns milhares de khaches continuaram a habitar em Lhasa, principalmente, onde conduzem suas atividades normalmente apesar da pesada vigilância de Pequim sobre eles (que é pesada no Tibete num geral, especialmente na comunidade budista que é ‘suspeita’ de ser leal ao exilado Dalai Lama, não se sujeitando aos falsos-gurus apontados e ordenados pelo Estado Chinês). Ao mesmo tempo, os muçulmanos Hui, que são chineses étnicos, tem total liberdade para atuarem como quiserem, uma vez que são considerados cidadãos altamente leais pelo PCCh justamente por seu vínculo étnico e histórico com Pequim, ao contrário dos khaches. Por outro lado, há aqueles que, numa hégira moderna, encontraram refúgio na Índia, conseguindo preservar sua identidade e coesão comunitária, mas tiveram de se deparar com uma situação radicalmente diferente da qual se encontravam a cerca de 600 anos: uma sociedade com hostilidade aberta, isolamento social, pobreza e preconceito crescente. Estando nos picos gelados do Himalaia ou nas quentes planícied indianas, uma coisa é certa: o paraíso khache, um oásis entre as montanhas, findou-sem em 1959.

Bibliografia

  • SINGH, Rohit (2015). Reimagining Tibet Through the Lens of Tibetan Muslim: History and Identity. Oxford Handbook topics on religion.
  • BERZIN, Alexander; “History of the Muslims of Tibet”. Study Buddhism.
  • AKASOY, Anna; TLALIM, Ronit-Yoelim; BURNETT, Robert (2010). ‘Along the Musk Routes. Exchanges between Tibet and the Islamic World.’ In Asian Medicine: Tradition and Modernity.