“E em verdade vos digo, senhor infante, que tão bons homens de armas são, e tanto sabem de guerra, e tão bem a fazem, que não fosse porque devem ter, e têm, Deus contra si pela falsa seita em que vivem, e porque não andam armados nem encavalgados de modo que podem sofrer feridas como cavaleiros, (…) que se por estas duas coisas não fosse, eu diria que no mundo não há tão bons homens de armas, nem tão sabedores da guerra, nem tão preparados para tantas conquistas” (Manuel, Don Juan, El Libro de los Estados, cap. LXXVI, p. 222)

Portugal, o país mais ocidental da Europa: numa época em que isso não tinha conotações políticas ou identitárias, ser “a praia ocidental lusitana” tinha implicações um tanto quanto diferentes no período medieval. Deixava o país sob menor influência das demais nações católicas – potências como França – e ao mesmo tempo expunha o povo à toda sorte de influências de vizinhos, como os muçulmanos do sul.

Embora alegações de que Portugal foi o reino cristão “mais culturalmente arabizado” do continente, como alegou o PhD David Nicolle (NICOLLE, 1988, p. ), sejam um tanto controversas, pelo menos é verdade que Portugal – e a bem da verdade outros países ibéricos como Castela e Aragão – sofreram um grau relevante de influência andaluza. Ainda assim, historiadores modernos como Guilherme Melo Mourão Azevedo Marôco pelo menos defendem um ponto bastante similar à constatação de Nicolle:

“... os povos e territórios muçulmanos serão, porventura, dos que mais influenciaram a formação, moldagem e consolidação de Portugal, como reconheceu José Mattoso: “(…) o avanço da fronteira [face aos muçulmanos] constitui (…) um elemento decisivo para a viabilidade da independência e para o desenvolvimento económico de Portugal.” A verdade é que a preponderância muçulmana torna-se por demais evidente no campo militar pois, como expõe Mário Barroca: “(…) a maioria dos eventos militares que tiveram lugar nos primeiros 150 anos do nosso período dizem respeito ao movimento que fez deslocar para sul a fronteira entre cristãos e muçulmanos (…).”

A preferência em dar guerra aos muçulmanos acaba por ser fruto de uma conjuntura favorável. No período em estudo, os reinos cristãos beneficiam da desagregação omíada (1009-1032) em Reinos de Taifa, a que se seguiu a fugaz conquista do Império Almorávida (entre 1090-1092), e a conquista e desagregação do Império Almóada (1146-1228, na Península). Toda esta instabilidade política no al-Andalus acabou por desgastar a potência militar muçulmana.” (MARÔCO, 2017, p. 1)

 

Mas não foi só a instabilidade dos potentados islâmicos na Península que voltaram o ímpeto militar português contra as Taifas:

“Por fim, no contexto português, a expansão a expensas dos reinos cristãos já estabelecidos seria extremamente onerosa (para não dizer irrealizável), tal como as campanhas contra a Galiza vieram demonstrar. Assim, é com naturalidade que o território islâmico se torna o principal alvo da expansão portuguesa. Fazer a guerra contra os muçulmanos acarreta, pelo menos teoricamente, a vantagem de fortalecer a relação entre o papado e Portugal, garantindo vantagens para a coroa. “ (Ibid, p. 2).

Mas, então, onde podemos ver a influência muçulmana no militarismo português? O legado mais forte encontra-se na língua, com diversos termos árabes sendo incorporados nas patentes militares: alcaide, um oficial militar encarregado de um castelo (conhecido noutros países como burgomestre); alferes, que no árabe significa cavaleiro, mas que na estrutura portuguesa referia-se ao porta-estandarte do reino e – pelo menos até as reformas anglo-francófilas de D. Fernando no século XIV – ao chefe supremo das forças militares da Coroa; o almirante, o chefe das forças navais do reino, etc.

Mas, se por um lado, Portugal foi tão ou mais influenciada no uso de termos que seus vizinhos cristãos, por outro lado o reino lusitano foi o mais conservador na sua adaptação de seu modo de fazer guerra.

Um exemplo perfeito nesta postura foi a questão dos ginetes. Inspirada no modelo de cavalaria ligeira dos invasores norte-africanos, Aragão e Castela desenvolveram no século XIV uma unidade de cavalaria leve armada com espada, dardos e a famigerada lança gineta: uma lança de cavalaria que podia ser tanto arremessada quanto usada numa carga, sendo inclusive capaz de atravessar pela armadura de um cavaleiro:

“’Por minha fé’, disse o Duque de Lancaster, ‘de todas as armas que os castelhanos e seus conterrâneos usam e fazer, eu admiro mais o dardo e amor vê-lo sendo usado; eles são muito proficientes nisto e eu te digo que, quem quer que seja atingido por isto, deve estar de fato fortemente protegido para não ser transpassado’. ‘Dizes certamente’, respondeu o escudeiro, ‘eu vi mais corpos transfixados nestes assaltos que em qualquer momento da minha vida. Nós perdemos um a quem muito estimávamos, Senhor João Lourenço da Cunha, que foi atingido por um dardo que perfurou por suas placas, sua cota de malha e cambais estufados com seda, e todo o seu corpo, de forma que ele imediatamente caiu [morto] no chão.’ “. (CALVERT, 2018, p. 25-26)

Enquanto ginetes eram unidades bastante populares de cavalaria nos reinos vizinhos, Portugal fez um uso limitadíssimo e raríssimo deles; e diga-se de passagem, somente após a vitória de D. João I de Avis em Aljubarrota (1385).

Além disso, Portugal foi o único reino ibérico a fazer uso de besteiros de cavalaria, também a partir do reinado de João de Avis. Mas, curiosamente, enquanto besteiros de cavalaria eram unidades desconhecidas em Aragão e Castela, por outro lado o emirado de Granada era um entusiasta nato deste modelo de combate; algo atípico para os próprios observadores muçulmanos que vinham de fora, geralmente da África, que nunca desenvolveram grande entusiasmo pelo “arco franco”. Isto indica não somente uma influência unilateral de muçulmanos para cristãos, mas também que os nasridas, muçulmanos ibéricos, também sofreram influências cristãs na sua forma de fazer guerra.

Embora almogavares fossem uma unidade mais tipicamente catalã, seu conceito foi emulado em Portugal, por vias próprias (NICOLE, 2012). O historiador Ian Heath tem adendos bem interessantes sobre esse assunto:

“Os Almughavari apareceram sob serviço tanto de Aragão quanto de Castela no século XIII, embora eles fossem, estritamente falando, um tipo de tropa catalã. Seu nome deriva do árabe al-mughawir, significando ‘alguém que faz incursões hostis’, ou simplesmente assaltante ou soldado levemente armado. Uma fonte do século XIII, na verdade, registra que ‘sarracenos’ se incluíam entre seus números. Eles participaram proeminentemente na guerra de Aragão com Felipe III da França, destruindo o exército deste em pedaços em Roussillon (1285) e na guerra do rei Pedro III e seu filho Federigo (Frederick III) na Guerra das Vésperas Sicilianas (1282-1302).” (HEATH, 1989)

Embora a análise de evidências eventualmente mostre que Portugal reformou muito pouco do seu militarismo em face ao distinto modo islâmico de guerra, por outro lado a questão de armamentos revela uma adoção bastante entusiasmada. Enquanto, no resto da Europa, dardos e fundas já tinham sido abandonados como equipamento “ultrapassado” ainda no século XIII, a península ibérica fez uso dessas armas até o fim da idade média; sendo notório, por exemplo, que a ala esquerda portuguesa na Batalha de Toro (1476) contivesse tanto atiradores com armas de fogo portáteis quanto atiradores de azagaias:

“Eles [os castelhanos] foram derrotados, muitos deles morrendo por causa das armas de fogo e das azagaias ... e deste modo, a vitória no início tinha sido dos portugueses ...” (ESTEBAN DE GARIBAY, Compendio hostiral de las chronicas y universal historia de todos los reynos de España)

Soldado português nas campanhas africanas, armado de adarga de couro e azagaia, ambas de origem islâmica. Tapeçaria de Pastrana, 1470’s.

A azagaia em si, uma arma de origem berbere, era frequentemente era emplumada para potencializar seu desempenho de arremesso, agindo como uma espécie de flecha gigante. Tão grande foi sua utilidade que ela chegou a ser oficialmente introduzida nas Companhias de Ordenança, o primeiro exército permanente da França, como uma arma de cavalaria, na segunda metade do século XV, pelo nome de “assengay”; posteriormente, na Inglaterra Tudor, a arma foi introduzida como equipamento de cavalaria dos Yeomen of the Guard, chegando até mesmo a figurar com alguma frequência no Inventário de Henrique VIII (1547) junto com um punhado de armas exóticas, como o “Moorish Pike”, uma lança extremamente longa utilizada pela cavalaria berbere do Norte da África, utilizada na Europa como equipamento de infantaria.

Quanto a adarga, refere-se a um escudo de couro endurecido introduzido pelos berberes a partir do século XI, sendo eventualmente adotado por tropas andalusas locais e, posteriormente, por ginetes dos reinos cristãos. Em Portugal, a arma figurava tanto entre a infantaria quanto entre a cavalaria, sendo também frequentemente capturada entre os espólios marroquinos:

“A adjectivação de Zurara em relação a essas armas que ficaram por espólio, chamando-lhes “proues cousas”, dá-nos uma ideia do pouco valor que as adargas vulgares teriam aos olhos dos Portugueses. Visão diferente tinham os muçulmanos, já que o mesmo cronista nos conta que entre os pertences de um alcaide muçulmano capturado por D. Duarte de Meneses, em idêntica expedição, havia “.xx. cauallos com outros muytos arreos de grande uallor .s. spadas terçados sellas freos dargas roupas. todo cousas specyaaes. por que nom soomente em aquellas que parecyam de fora. mas ainda nos ferros das cilhas eram achados lauores de prata.” (adarga 3). Ficamos sem saber com toda a certeza se também as adargas referidas tinham “lauores de prata”, mas é certo que se tratava de “cousas specyaaes” pela sua riqueza.” (AGOSTINHO, 2013, p. 50)

Além de lanças de arremesso e fundas, uma outra arma conectada aos muçulmanos era o terçado, um tipo de espada referenciado em crônicas do século XV durante as atividades portuguesas no Marrocos.

“O quarto tipo de espada encontrado nas crónicas foi o terçado. Trata-se de uma espada mais curta e mais leve do que a espada de mão. O seu comprimento seria equivalente a dois terços de uma espada, tendo daí retirado o seu nome (cf. MACHADO, 1995, vol. V, p. 291). Esta arma é referida apenas em acontecimentos ocorridos no Norte de África, pelo que poderemos estar na presença de uma arma relativamente recente. De certo modo, o contexto africano pode ter levado a uma maior procura de armas mais leves. O calor tinha forçado um aligeirar das armas defensivas e as pesadas espadas de armas deixaram também de ser tão funcionais. O seu peso torná-las-ia insustentáveis para guerreiros submeti dos a temperaturas mais elevadas. Espadas mais leves podiam então reaparecer, pois não só eram mais fáceis de manipular, como voltaram a ser eficazes contra defesas de corpo mais simples.” (Ibid, p. 138)

Retábulo da Batalha de El Puig, c. 1400. Note o uso de adargas em ambos os lados, assim como cavaleiros cristãos usam a “pegada andaluza” com a lança, ao invés da lança segurada pelas axilas, como vista na figura do Rei de Aragão.

Considerando que o terçado é registrado entre os equipamentos típicos de marroquinos notórios, costuma-se deduzir que se trata de uma espada local adotada pelos portugueses. Apesar de desconhecermos se era uma espada reta e curta, ou apenas um sabre, a evidência artística castelhana de 1500, após as experiências dos mesmos no Norte da África, parecem sugerir que o terçado, na verdade, era meramente uma espada curta, não um sabre.

Representação artística do Cerco e Conquista de Oran (1509)

 

Quando, no século XIV, exércitos franceses e ingleses adentraram na Península Ibérica em grandes números, a diferença na forma de se fazer guerra ficou patente. Os ibéricos, acostumados com uma guerra de cercos e guerrilhas, sofreu um abalo diante do modelo de combate experimentado pelo resto da Europa naquela mesma época, especialmente por conta da Guerra dos Cem Anos. Tanto do lado português quanto do lado castelhano, reformas militares para tornar os sistemas nativos mais próximos do que se fazia no resto da Europa, consequentemente, tornaram o militarismo ibérico cada vez mais “genérico” e cada vez menos “ibérico”; isto é, também, menos islamófilo. Ainda assim, na segunda metade do século XV, o uso de infantaria pesada fortemente blindada da Península seria levado para guerras fora da Espanha com notória eficiência; mostrando que mesmo após processos de uniformização os ibéricos ainda conseguiam algum espaço para desenvolverem seus próprios conceitos, inclusive com algum tipo de influência moura.

Conjunto de armadura três-quartos de origem espanhola, para infantaria pesada. No Musee de Arme de Paris, França.

Bibliografia:

-MARÔCO, Guilherme. Arte militar muçulmana em território português, 1096-1249. Coimbra: 2017. Disponível em: <https://eg.uc.pt/bitstream/10316/85427/1/Arte%20militar%20mu%C3%A7ulmana%20em%20territorio%20portugu%C3%AAs%2C%201096-1249.pdf?fbclid=IwAR0WTtfxWXRiFBdYFRssKOo34YMJshJaFXdSSYHQXdZqOPMsDqyglogn8j8>. Acesso em 12 de abril de 2021.

-NICOLLE, David. El Cid and the Reconquista 1050-1492. Osprey Publishing, 1988.

-CALVERT, Albert F. Spanish Arms and Armor. 2018.

-NICOLLE, David. The Portuguese in the Age of Discovery, c. 1340 – 1665. Osprey Publishing, 2012.

-HEATH, Ian. Armies of Feudal Europe 1066 – 1300. Wargaming Research Group, 1989.

-AGOSTINHO, Jorge Simões. Vestidos para Matar: o armamento de Guerra na cronística portuguesa de quatrocentos. Universidade de Coimbra, 2013.