Os Nusayrī-ʿAlawīs, os alauítas, também conhecidos como nusairitas ou ansaris, são um secto muçulmano xiita que rompeu com o xiismo convencional no final do século IX. Ainda que suas doutrinas sejam altamente sincréticas, heterodoxas e consideradas pós-islâmicas por alguns, sua histórica é indissociável dos estudos islâmicos. Originados do movimento Ghulāt, cujas características veremos em seguida, os alauítas, comumente chamados por seus adversários de nusairitas em virtude do nome do fundador do secto, Muhammad ibn Nusayr, um jovem estudante e místico xiita de Kufa, no atual Iraque. Ao longo dos séculos, foram duramente perseguidos por suas crenças, uma amálgama de diversas doutrinas das religiões do Oriente Próximo e ficaram no fogo cruzado entre potências, revoltas e guerras santas, sempre à margem da sociedade e civilização islâmicas. A sua principal área de habitação é na cadeia de montanhas do litoral sírio, conhecido não à toa como Jabal al-Nusairiyya (Montanhas dos Nusairis), estando presentes também em grande número nas províncias de Homs e Hama; habitam também no distrito libanês de Akkar, ao sul de Latakia (norte do Líbano) e no bairro de Jabal Mohsen, em Trípoli; nas províncias turcas de Hatay (antigamente conhecidas como Alexandretta ou Iskandarun), Seyhan (Adana) e Tarsus. Havia até pouco tempo atrás algumas famílias alauítas na Cisjordânia, que acabaram se retirando para a vila de Ghajar, nas colinas do Golã, onde até hoje há uma comunidade alauíta com cidadania israelense. Eles também vivem em grandes centros urbanos sírios, como Damasco, Aleppo, Hama etc.

Para começar, quem eram os ghulats? Os ghulats, isto é, os exageradores eram uma denominação dada pelos xiitas e sunitas ortodoxos àqueles xiitas que exageravam na sua devoção à alguma figura central do Islam: o Profeta Muhammad, o Imam Ali, a Ahl ul bayt (família do Profeta, especificamente Ali, Fátima, Hassan e Hussein) e o Imamato (os Doze Imãs do Xiismo Jafari, também conhecido como duodecimano), a ponto de considera-los Divinos ou mesmo Deus encarnado (ou apenas manifestado), tal qual Jesus para os cristãos. Um desses sectos, os mukhamissa de Abu al-Khattab, consideravam que Deus havia encarnado em Muhammad e posteriormente, nos Imãs. As ideias de Abu al-Khattab tiveram um grande impacto e influência nas ideias mais tarde elaboradas por ibn Nusayr. Havia muitos outros sectos, ainda, que divinizavam os Imãs e os Ahl ul Bayt; os nusairitas viriam a ser apenas mais um, com a diferença de que eles são um dos únicos sectos ghulat a sobreviver até os dias de hoje, crendo que Ali ibn Abu Talib era uma manifestação de Deus, assim como também foi o Profeta Muhammad, o sahaba Salman al-Farsi e Muhammad ibn Nusayr, embora Ali seja o maior de todos: ele é a manifestação mais “pura” de Deus.

Abū Shu’ayb Muhammad ibn Nusayr al-‘Abdī al-Bakrī al-Numayri foi um estudante e místico xiita - “um tariqueiro”, como diz Olavo de Caravalho -que teve, alegadamente, contato com o décimo e o décimo-primeiro Imãs,‘Alī al-Hādī e Ḥassan al-‘Askarī, respectivamente (o décimo-segundo imã, o Imã Mohammed al-Mahdi foi, segundo a tradição xiita duodecimana, oculto por Deus para retornar no fim dos tempos). Pouco se sabe sobre sua vida antes de sua polêmica atuação no campo religoso do efervescente Iraque do final do primeiro milênios após Cristo, exceto que ele era membro da tribo árabe dos Banu Numayr, ou Banu Numayriyya (daí seu sobrenome al-Numayri) e que teria estudado na Índia em sua juventude. É dito que ibn Nusayr detinha um círculo de alunos que logo evoluiu para uma tariqa, um círculo esotérico, com ibn Nusayr ensinando suas doutrinas controversas (para não dizer heréticas) que causaram, por duas vezes, sua excomunhão pública: transmigração das almas (reencarnação), divinização do Imã (à época, al-Hādī) e reclamando o dom da profecia para si mesmo; na segunda vez, após a morte do imã Ḥassan al-‘Askarī, ibn Nusayr “revelou” ser o bāb do falecido imã, isto é, seu enviado íntimo, a quem teria sido ensinado conhecimentos secretos pelo divino imã. Além disso, também reclamava para si o título de representante do imã sumido, o Imã Mahdi, representando-o em sua ausência. Publicamente excomungado e amaldiçoado, ibn Nusayr tentaria, em vão, se desculpar com a ulemá. No entanto, a essa altura, sua seita já estava bem estabelecida entre os Banu Numayr, contando com muitos aderentes e capítulos (grupos) em outras cidades, como Samarra, especialmente através de financiamento pela rica tribo dos Banu al-Furat, uma rica dinastia a quem pertenciam poderosos comerciantes e homens públicos da região. Os Banu al-Furat durante muito tempo financiariam a tariqa nusairita, num elo entre religião e poder, mas seriam mais tarde descobertos pelos Abássidas – inimigos mortais dos nusairitas – e liquidados por eles. Os Numairiyya, no entanto, conseguiram sobreviver num ambiente hostil pois a maioria de seus membros eram intelectuais de classe média e se utilizavam de taqiyyah, isto é, escondiam suas verdadeiras crenças e se apresentavam como muçulmanos ortodoxos; secretamente, em suas reuniões, não chamavam a si mesmos de “muslimin”, mas sim de muwwahidun: “monoteístas”, por crerem ser os únicos detentores do real monoteísmo, ocasionado pela fusão do exotérico (zahir) e esotérico (batin). O fim de ibn Nusayr foi ser executado por blasfêmia, atribuindo divindade ao imã, uma “profissão de fé” chamada de nidāʾ. Para a seita, ibn Nusayr não foi morto de fato, mas apenas em aparência, isto é, de maneira ilusória. Tempos mais tarde, al-Khasībī, o segundo maior nome do nusairismo, diria que o Imã Hussein ibn Ali, filho de Ali ibn Abu Talib e segundo imã, morto em combate, não teria sido de fato morto, mas apenas aparentemente morto, uma vez que ele, assim como ibn Nusayr (embora Hussein como imã seja maior que Nusayr) eram forças divinas cujo corpo era uma manifestação, não sendo carnal de fato. Esta doutrina ecoa as doutrinas chamadas “docéticas” de alguns cristãos gnósticos que achavam que Jesus Cristo não poderia ter morrido na Cruz; antes, sua crucificação e morte foram uma ilusão de ótica. Tal como a crucificação de Jesus, assim teria sido o martírio de Hussein ibn ali e a execução de Muhammad ibn Nusayr.

Muhammad ibn Nusayr foi sucedido por Muhammad ibn Jundab, seu mais proeminente aluno. Nesse tempo, ainda sob os Abássidas sunitas, o ambiente era hostil: rebeliões e execuções, prisões de líderes xiitas e ataques por extremistas cármatas aos sul tornavam o uso da taqiyyah obrigatório para a sobrevivência do secto. De fato, a taqiyyah foi tão efetiva que as autoridades não sabiam quem era o sucessor de Nusayr. Muhammad ibn Jundab foi sucedido por ‘Abdallāh al-Jannān al-Junbulānī, natural da vila de Junbula, entre Kufa (principal centro dos nusairitas) e Wāsit. Seria um conterrâneo de al-Jannān, um outro al-Junbulānī, que viria a ser o maior nome de toda a história e teologia nusairita, seu mais notável líder, tão grande quanto o próprio Muhammad ibn Nusayr.

É impossível falar ou entender a história e as doutrinas nusairitas sem falar de Abū ‘Abdallāh al-Ḥussein ibn Hamdān al-Khasībī al-Junbulānī, um homem que veio de uma proeminente e religiosa família de devotos xiitas: seu pai, Hamdān, era um transmissor de tradições xiitas, especialmente as biográficas relacionadas ao Profeta Muhammad. Seu tio, Ibrahim, era assistente do Imam al-‘Askarī e seus tios eram igualmente bem quistos. Desse modo, al-Khasībī foi desde muito cedo exposto à religião e à mística, fazendo o Hajj e vários outras peregrinações em sua juventude, além de estudar poesia, hádices e exegética corânica. Por influência de seu tio Ahmad, al-Khasībī foi apresentado a al-Jannān; não demorou muito para que al-Jannān “adotasse” o jovem prodígio como seu filho espiritual. Esta adoção, no entanto, não era apenas uma relação de professor-aluno, mas sim uma verdadeira iniciação esotérica de al-Khasībī na tariqa nusairi.  Após a morte de al-Jannān, a tradição nusairita pontua que al-Khasībī, para completar seus estudos, foi ao encontro de um senhor supostamente discípulo de ibn Nusayr. Lá, no dia do feriado xiita de ʿāshūrāʾ, além de completar seus estudos e iniciação, teria sido visitado pelos últimos dois Imãs (al-Hādī e al-‘Askarī) que teriam lhe revelado diversos conhecimentos ocultos, dentre os quais aquele que colocava ibn Nusayr como “Portão (bāb) para Deus e líder dos fiéis”; munido das bênçãos e conhecimentos ocultos dos Imãs, al-Khasībī estava pronto para liderar a comunidade nusairita para uma nova era de florescimento. Al-Khasībī logo decidiu fazer o nidā’, tal qual ibn Nusayr o fizera, e pregar as doutrinas do secto publicamente: foi preso. Após um misterioso escape da prisão, a quem os nusairitas atribuem a uma milagrosa intervenção do espírito de Jesus (Isā), fato esse muito significante na sua vida, al-Khasībī decidiu mudar-se com seu séquito do turbulento e caótico Iraque do século X para a região da Síria, onde ele conseguiu se estabelecer com seus companheiros na cidade de Harran, na atual Turquia, um local bem conhecido por ser lar dos últimos pagãos da região: os sabeus, seguidores de uma religião sincrética que misturava o hermetismo, o neoplatonismo e o culto às estrelas e à uma antiga divindade lunar mesopotâmica. Não se sabe se os sabeus de Harran influenciaram os nusairitas de algum modo; alguns autores como René Dussaud em sua obra Histoire et religion des Nosairîs, dizem que sim, mas tal afirmação é extremamente difícil de se comprovar. O que se sabe é que, apesar de haver uma presença xiita em Harran, a Síria se provou inicialmente um ambiente um tanto quanto hostil ao grupo, no entanto, ela logo se tornou um importante centro nusairita, lar dos Banu Shu’ba, uma tribo nusairi que durou o mesmo tempo que a “era de ouro” dos nusairis, até o final do século XI. Após a dinastia xiita dos Buídas tomar o poder no Iraque, al-Khasībī retornou ao Iraque, onde posou como um xiita ortodoxo e escreveu uma considerável quantidade de obras. Inicialmente, al-Khasībī acumulou imenso pretígio na Academia xiita da época, sendo bendito por vários escolares e influentes sheykhs da época; obteve uma ijaza (uma licença oficial para lecionar determinado autor) para lecionar sobre um importante acadêmico xiita. Mais tarde, porém, ele aparece sendo condenado algumas vezes por alguns estudiosos xiitas, que o acusam de acreditar em reencarnação das almas e na encarnação da Divindade em Ali ibn Abu Talib; a maioria de tais acusações foram provavelmente censuradas para limpara a reputação de al-Khasībī. Nos seus últimos anos de vida, al-Khasībī retornou para a Síria, onde foi acolhido pelo governante da dinastia Hamdanita em sua corte, em Aleppo, deixando um certo al-Jīsri para comandar os “monoteístas” no Iraque. Após sua morte, foi sucedido por Muhammad ibn ‘Alī al-Jillī. Ao contrário de seus antecessores que pouco escreveram, al-Khasībī era um ávido escritor, legando diversas obras a seus irmãos e filhos espirituais, assim como novas doutrinas. Muitas doutrinas e detalhes doutrinários novos foram adicionadas ao catálogo do secto, dentre as mais notáveis: a transmigração cíclica das almas, as Tríades Divinas e suas manifestações (aparentes, pois o Divino não pode ser encarnado, uma doutrina idêntica ao conceito dos avataras do Hinduísmo) através da história (antes era um Díade e o bāb não era considerado totalmente divino), além de conceitos da emanação da Divindade (semelhantes ao Neoplatonismo) e interpretações místicas, esotéricas e alegóricas do Alcorão, além de muitas outras.

Após a morte de al-Khasībī em 957 d.e.c., al-Jillī herdou a liderança da comunidade. No entanto, seu período de liderança foi dramático: a Síria já passava por maus bocados quando, em 962, os bizantinos sob o imperador Nicéforo Focas incendiaram Aleppo e mataram o patrocinador do secto. Para garantir a sua sobrevivência, os nusairitas precisavam espalhar sua mensagem, aumentar seus números. Mas como fazer isso sendo que o grosso da população do Levante, à época, era de sunitas hostis ao xiismo? A solução encontrada foi pregar entre os não-muçulmanos. Os cristãos, especialmente os da Galileia, do Golã e da costa síria de Latakia, região do Jabal, foram alvo do dawa (proselitismo) do secto. Muitas obras nesse período utilizam termos teológicos cristãos, mas isso não representa uma “cristianização” do nusairismo, ou que os nusairis viriam a ser “cristãos islamizados” como a grande maioria dos estudiosos e acadêmicos ocidentais do século XIX e do começo do XX dizia, mas sim uma “nusairização” ou “islamização” dos termos e alguns conceitos e até doutrinas cristãs. Vários feriados cristãos passaram a ser feriados nusairitas também, sendo ressignificados, com o intuito de atrair cristãos para as fileiras nusairis, especialmente aqueles cristãos nestorianos e siríacos que se encontravam ao relento, considerados heréticos pelos bizantinos ortodoxistas e infiéis pelos árabes sunitas. Logo, o secto estabeleceu uma forte presença nas áreas rurais de Aleppo, Harran, Tiberias e Beirute.

Al-Jillī foi sucedido po Maymūn ibn al-Qāsim al-Tabarānī, um estudioso com extenso conhecimento do Islam xiita, teologia cristã, filosofia grega e religiões persas (masdeístas), além de ser o primeiro a usar cifras e “letras mágicas” em seus escritos. Al-Tabarānī é conhecido por ser o líder espiritual nusairita que mais produziu obras escritas, superando até mesmo al-Khasībī; nessa época hpuve a grande divisão entre as massas iniciadas e as não-iniciadas.

Após al-Tabarānī, o secto ficou enfraquecido, tornando-se descentralizado entre os diversos sheykhs e comunidades diferentes. Em troca de proteção, os nusairis se submeteram a clãs encastelados na região costeira do Levante, de Aleppo e Golã até Beirute.

Durante as Cruzadas, muitos nusairitas foram mortos quando os cruzados europeus tomaram o Monte Líbano. Eles logo, no entanto, compreenderam que o estranho povo não era de fato “sarraceno”, muçulmano, e passaram a forjar alianças com os sheykhs nusairis. Através dessa parceria, os nusairitas reganharam muitos castelos na região que ainda estavam sob poder dos ismailitas e de sunitas.

Os Aiúbidas (1171–1260) trouxeram curdos ocupar e patrulhar a região, bem como manter os nusairitas sobre controle. Durante o período cruzado, ainda, os Ismailitas nizaris, seguidores do “Velho da Montanha” Hassan ibn Sabbah, conhecidos como hashshashins também ocuparam algumas fortalezas do Jabal, oprimindo a população local. A tradição nusairita então narra a vinda de um “salvador” diretamente da província iraquiana do Sinjar, notável por sua população de outro secto, os yezidis, Abū Muḥammad al-Hasan ibn Yūsuf al-Makzūn al-Sinjārī, ou al-Makzūn para os íntimos, liderando um grande exército que expulsou os curdos e os nizaris, além de massacrar os rivais intelectuais dos nusairis, os ishaqiyyas (seguidores do Ishaq al-Ahmar, um rival de Muhammad ibn Nusayr) e os duhabiyyas. Esses guerreiros e suas famílias são tidos como os ancestrais da maioria dos atuais nusairitas/alauítas da Síria, inclusive a da atual família presidencial síria, os al-Assad, cuja nata é a tribo dos Kalbiyya, vinda do Sinjar. Al-Makzūn levou um revivalismo do secto na região, tanto na área demográfica quanto na área teológica: poetas podiam escrever sobre as crenças e temas secretos, desde que codificassem-nos; uma linguagem “militar” passou a permear os escritos teológicos nusairis da época, sendo introduzido o conceito de jihad esotérica e exotérica e houve também alguns  elementos sufis trazidos por al-Makzūn, chamando o nusairismo de ‘ilm al tassawuf, “ciência do sufismo”, ao mesmo tempo que al-Makzūn ataca Mansūr al-Hallaj (místico persa sunita, 858 – 922) e o conceito sufi de união com Deus como heresia, favorecendo a visão de um Deus puramente transcendental e oculto (na tradição nusairita, Deus é muitas vezes chamado pelo epíteto Al-Ghāyba, “A Ausência” ou “O Oculto”), ou seja, inalcançável.

Após expulsar as hordas mongóis em Ain Jalut (1260) junto coms grande parte dos hashashins, o sultão do Egito, Baybars, estabeleceu o poder da dinastia dos Mamelucos (1250–1517). Devotamente sunitas e hostis a qualquer forma de xiismo, sobrou para os já marginalizados nusairitas e druzos: o sultão ordenou que mesquitas (os nusairitas não rezam em mesquitas e raramente têm casas de oração, a maioria das cerimônias são feitas em residências ou tumbas de sheykhs) em cada vilarejo nusairi, o aumento de impostos para os nusairitas e a proibição da fabricação, importação e consumo de vinho (os nusairitas, diferente dos muçulmanos, tomam vinho sem preocupação alguma e ele é inclusive utilizado em cerimônias religiosas chamadas qadassah, que possuam uma semelhança muito grande com as missas do cristianismo). O mais severo decreto foi, no entanto, a proibição da iniciação na religião, algo que significaria, a longo prazo, no desparecimento dela. Tais tentativas falharam miseravelmente, levando o historiador árabe ibn Battuta a dizer, ironicamente, que os nusairitas “fizeram das mesquitas currais para seu gado” (ibn Battuta, Tuhfat al-nuzzar, pg. 291).  Tais supressões contra a religião nusairita, aliadas à miséria, marginalização e dificuldades econômicas levaram a um revolta com foco na província de Jabala em 1317, que ficaria conhecida como “A Revolta do Mahdi” (o Mahdi, o “messias islâmico” é um conceito central da teologia xiita duodecimana, da qual o nusairismo descende diretamente).

Os nusairitas de Jabala, descendentes daqueles guerreiros que al-Makzūn trouxera do Sinjar, se rebelaram pregando jihad guerra santa contra seus opressores sunitas, como nos conta o historiador muçulmano contemporâneo ibn Kathir, aos gritos de “Não há Deus além de Ali [ibn Abu Talib], não há véu além de Muhammad [ibn Abdallah, o Profeta] e não há Portão além de Salman (al-Farsi)”, proclamando os muçulmanos como infiéis (kaffirun) e proclamando que apenas os nusairitas detinham a Verdade; por vezes, o tal mahdi dizia ser “Ali ibn Abu Talib, o Criador dos Céus e da Terra (i.e., Deus) ou Muhammad ibn Abdallah, o ‘Senhor da Terra’.” O mesmo ibn Kathir, além de um outro historiador chamado al-Maqrisi, nos narra que após tomar a cidade de Jabala, matar ou escravizar seus habitantes e saquear o assentamento, o mahdi encontrou seu fim nas mãos do governador da província em uma batalha e a rebelião foi sufocada. Tais descrições nos dão uma descrição bem resumida e superficial das doutrinas nusairitas: a Divindade de Ali ibn Abu Talib. Vale comentar que a revolta foi apenas na região do Jabal, poisos nusairitas das outras localidades não se juntaram à ela.

Seguindo este evento marcante, uma fatwa, um tipo de decreto religioso islâmico, como uma encíclica, foi publicada pelo estudioso e teólogo muçulmano sunita ibn Taymīyyah (1263 – 1328). Um controverso e conservador membro da escola Hanbali, que alguns estudiosos dizem ser o precursor das modernas heresias do wahabismo e do salafismo, ibn Taymīyyah escreveu e lançou sua fatwa contra os nusairitas acusando-os de idolatria (shirk) e exortando os fiéis muçulmanos a os liquidarem. Esta foi a primeira fatwa com os nusairis, mas não seria a última. Temendo por suas vidas, os nusairitas enviaram emissário à Trípoli para pedirem para serem incluídos aos “Povos do Livro” (ahl ul kitab, cristãos, judeus e sabeus) e pagarem a jízia, em troca de proteção. Para a sorte dos seguidores de ibn Nusayr, ibn Taymīyyah era visto como um fanático exagerado pela maioria das pessoas de seu tempo (até hoje, pelas pessoas sensatas), e isso incluía os mamelucos; somando-se a isso, estava o fato de que os nusairitas eram uma comunidade produtiva, que pagava os impostos e dia e cultivava a terra: não sofreram represálias nem ataques, mas sua condição tampouco ficaria melhor.

Apesar de serem odiados pelos seus vizinhos muçulmanos e olhados com no mínimo desconfiança pelos cristãos, os nusairitas eram conhecidos por serem um povo trabalhador e pobre, essencialmente camponês. Assolados por um ambiente hostil, disputas entre os clãs nusairitas e os clãs sunitas e cristãos (e até mesmo entre os próprios nusairitas, por vezes), a quem bandidos e quadrilhas nusairis atacavam sem dó, profundamente empobrecidos, o povo de ibn Nusayr se via numa posição desesperadora na busca da sobrevivência; os senhores de terra sunitas, necessitando de mão-de-obra barata, viam nos nusairitas uma grande fonte disto, empregando-os nas lavouras e deixando-os relativamente em paz.

Durante a época do Império Otomano, T.E, Lawrence, o conhecido “Lawrence da Arábia”, narra que o secto não se envolvia em políticas nem assuntos públicos, “deixando as autoridades otomanas em paz esperando uma resposta recíproca”. Nem sempre funcionava e, devido ao preconceito dos seus vizinhos e a miséria dos nusairitas – que muitas vezes acabavam indo para a bandidagem, tornando-se gângsteres, ladrões de gado e salteadores -, os nusairitas acabavam sofrendo nas mãos das autoridades otomanas, não tendo o status nem de dhimmis (minoria protegida). Eram párias da sociedade. Essa perseguição e desprezo mútuo são evidenciadas pelo fato dos nusairitas creem que os muçulmanos sunitas são heréticos (os xiitas são ignorantes) e rezam por sua destruição. Há uma curiosa crença entre os nusairis que narra que sheykhs sunitas reencarnam como mulas, enquanto padres cristãos reencarnam como macacos.

Um verdadeiro faroeste havia vingado nas terras do Jabal al-Nusairyya: a região era conhecida por ser o lar de conflitos sectários entre nusairitas e seus vizinhos ismailitas e pela atuação de bandidos. O território de um dos principais quatro clãs nusairitas, aquele dos Kalbiyya ou Banu Kalb, era considerado o mais fora-da-lei. Comuns também eram as expedições punitivas otomanas contra os “bandidos” nusairitas: em 1760, um físico inglês foi morto no Jabal e a comunidade se recusou a colaborar nas investigações; o governador otomano então reuniu um exército e marchou sobre o Jabal, matando centenas de nusairitas, dentre os quais 70 líderes tribais e sheykhs dos nusairis, decapitando-os e espetando suas cabeças em lanças. Durante o século XIX um missionário inglês, Reverendo Samuel Lyde, viveu entre os nusairitas entre 1853 e 1859, destacando a melancolia intrínseca que permeava todos os aspectos da vida desse povo, além do constante conflito que a perpassava; nas palavras de Lyde, a sociedade nusairita era um “inferno sobre a terra”. Midhat Pasha, apontado governador da Síria em 1879 apresentou medidas para “disciplinar” o arruaceiro povo das montanhas, que incluíam a abertura de escolas, autonomia para a comunidade e parar com a opressão dos órgãos governamentais. Os sunitas de Damasco ficaram ultrajados e pediram para o sultão Abdülhamid II removê-lo; Abdülhamid, que detestava o estilo reformista liberal e democrático de Midhat, o retirou do governo em 1880.

Após a derrocada do Império Otomano, a França ocupou os territórios do Líbano e Síria (incluindo Iskenderun) e, utilizando-se da estratégia do “dividir e conquistar”, fragmentou seus domínios em áreas étnico-religiosas: o “Grande Líbano”, com maioria da população composta por cristãos maronitas e ortodoxos; o “Jabal el-Druze”, uma região autônoma para os druzos; o Estado de Damasco e o Estado de Aleppo, com maioria sunita e por fim, o “Estado Alauíta” (primeiro uso frequente do nome “alauíta”) no que seria o Governorado de Latakia, no Jabal al-Nusairiyya. Como os sírios sunitas se recusavam a colaborar com os franceses e alistar seus filhos no exército, os franceses, vendo nos druzos e alauítas as únicas “raças guerreiras” da região, escoraram-se neles para preencher os postos de seu exército colonial. Não demorou muito para os alauítas tornarem-se proeminentes e dominantes no exército colonial sírio, posição que lhes seria muito favorável após a independência. Apesar dessa colaboração, nem todos os nusairitas eram amistosos com os franceses e, em 1918, uma revolta nusairi eclodiu, com os insurretos tendo à sua frente o sheykh Salih Ahmad al-Ali. Após unir vários sheykhs à sua causa e sendo apoiado pelo presidente turco Mustafá Kemal Atatürk, emboscou e derrotou uma grande força francesa enviada para dar-lhe fim; após isso, ele reorganizou o exército numa força regular. Al-Ali atacou também os ismailitas (que haviam se aliado aos franceses e ajudado-os em suas expedições contra al-Ali) em sua principal cidade, Qadmus, ocupando-a. Derrotando os franceses mais três vezes seguidas (nem canhões e ataques contra civis alauítas puderam ajuda-los), em 1920 al-Ali fez os franceses proporem paz, e juntos fizeram uma trégua; os franceses no entanto, violaram o tratado de paz, o que fez as hostilidades reacenderem. Em 1921, al-Ali foi forçado a se esconder, sendo julgado e condenado à morte in absentia por um tribunal militar. Os franceses, cansados de procurá-lo, o perdoaram e distribuíram panfletos por avião pelo Jabal. Al-Ali se entregou e, perguntado pelo seu ””captor””’, o General  Billote , pelo motivo da rendição, al-Ali respondeu: “Por Deus!Se eu apenas tivesse uns 10 homens para lutar, eu não me renderia”.

Durante a década de 30, às vésperas da independência síria, com os franceses cedendo às pressões nacionalistas, os alauítas, cuja imensa maioria permanecia leal e amigável à França, não queriam, num eventual fim do regime colonial francês, serem unidos a seus tradicionais inimigos e algozes. Em 1936 um memorando foi enviado ao premiê francês Leon Blum, assinado por 6 notáveis alauítas, dentre eles Suleyman al-Assad, pai do futuro presidente sírio Hafez al-Assad e avô do atual, Bashar. O memorando – um apelo desesperado à França – revelava o ódio dos alauítas pelos seus vizinhos nacionalistas sunitas e seu temor pela unificação com eles novamente; suas esperanças eram a independência de um estado alauíta separado que juntar-se-ia com o Líbano (lar da segunda maior população de alauítas à época). Tudo em vão: com o fim da Segunda Guerra Mundial, veio o fim do mandato francês na Síria, que se tornou um país independente. Ao mesmo tempo, a nova geração de alauítas, educadas em escolas elementares e europeias, tornavam-se mais dóceis a seus compatriotas sunitas do interior do país, ao mesmo tempo que deixavam o estilo de vida tribal de seus antepassados. Um desses jovens era Hafez al-Assad, filho do importante líder alauíta Suleyman al-Assad, da tribo dos al-Kalbiyya. Mas ainda não chegou a hora de falar dele. A ascensão dos alauítas ao poder na Síria foi lenta, ocorrendo através de dois canais: o exército e o Partido Baath, ou Partido Socialista Árabe que, apesar do nome, repudiava o marxismo e pregava o nacionalismo árabe e o pan-arabismo (a união de todos os árabes). Como já foi citado, a condição deplorável de vida dos alauítas tornavam o alistamento militar de seus filhos um alívio para eles e para as famílias; uma vez no exército, os recrutas poderiam ir para a Academia Militar e aprimorar seus estudos, feitos na escola secundária. Isso acabou tornado os alauítas uma espécie de “casta militar” (junto aos druzos, mas estes em menor número), enquanto os sunitas conseguiam pagar o badal, uma isenção do serviço militar, rechaçando-o como imperialismo estrangeiro.

O Partido Baath conseguiu atrair para suas fileiras muitos alauítas, especialmente por sua retórica em prol do secularismo, oferecendo oportunidades para todos. Em 1958, a Síria se uniu com o Egito, formando a República Árabe Unida. Ironicamente, a facção síria do Baath foi extinguida por Gamal Abdel Nasser, mostrando quem seria o novo manda-chuva do pedaço. Os alauítas do Baath enxergaram com maus olhados essa união: seu medo era se unirem a um maioria sunita; agora, estavam unidos a uma esmagadora maioria sunita. Não demorou muito para os oficiais alauítas do exército, dentre eles Hafez al-Assad, se unirem para tentar resolver a questão, suspeitando que os líderes do Baath Sírio – agora unido ao egípcio – haviam entregado a Síria de bandeja à Nasser. Em 1961 a União colapsou e a Síria foi atingida por uma série de golpes de estado e complôs políticos que culminaram no golpe de 1963, levando Assad a um importante cargo no governo como primeiro-ministro. Enquanto isso, alauítas, druzos e ismailitas, outrora inimigos, agora aliavam-se entre si e monopolizavam o Partido Baath, junto de alguns poucos sunitas: a esta altura, os alauítas ganhavam cada vez mais e mais terreno dentro do partido, especialmente nas pessoas de Zaki al-Arsuzi, Muhammad Umran e Hafez al-Assad. Em 1966, um outro golpe, orquestrado por oficiais alauítas, druzos e ismailis, tomou Damasco e forçou Salah ad-Din al-Bitar e Michel Aflaq – um sunita e um cristão -, fundadores do Baath sírio, a fugirem do país; 1966 marcou a vitória dos “regionalistas” sírios e causou um cisma entre o Baath sírio e o iraquiano, bem como com o egípcio. Após o golpe, começou uma purga para “alauizar” ainda mais as forças armadas.

Em 13 de novembro de 1970, Hafez al-Assad deu um golpe de estado e derrubou o governo do presidente Nur al-Din al-Atasi e de seu premiê Salah Jadid. Em fevereiro, ele se tornou o primeiro presidente alauíta do país, completando o gradual processo de subida ao poder pela comunidade antes marginalizada. Os alauítas, que antes apenas queriam autonomia para si mesmos em sua área, tornaram-se os mestres da Síria e suas instituições. O autor Robert Kaplan compara a subida de Assad ao poder como “um intocável tornando-se marajá na Índia ou um judeu tornando-se Tzar na Rússia”. A comunidade que antes sofria rejeição, discriminação e abusos evoluiu de uma retrógrada sociedade tribal para uma população emancipada em posição de dominância.

Durante o governo de Hafez al-Assad, para tornar a comunidade alauíta mais “palatável” ao mundo islâmico e integrá-la melhor, Assad iniciou um processo de “sunificação” dos alauítas, argumentando que o alauísmo nada mais eram que xiitas duodecimanos (como os xiitas do Irã e Iraque), construindo mesquitas em estilo sunita nas cidades e vilas alauítas, para dar ao menos uma aparência de religiosidade comum. Os alauítas também foram encorajados a fazer o Hajj, peregrinação à Meca, algo que é considerado supersticioso e herético (até mesmo pecaminoso) na tradição alauíta. Hafez tentou fazer dos alauítas “bons muçulmanos”, em troca em troca de estabelecer uma sociedade modicamente secular e plural. Um dos atos de seu “Movimento Corretivo” de modernização e reorganização da Síria foi rechaçar o secularismo extremo de seu antecessor e dar mais proeminência, porém limitada, aos clérigos sunitas e cristãos. Apesar de tudo isso, décadas de ditadura de Hafez e seu filho, Bashar, tiveram o sentido contrário: muitos sunitas e até outras minorias veem os Assad como carrascos e os alauítas como espoliadores do país, contribuindo ainda mais para o sectarismo na sociedade síria, apesar de uma aparência de coesão social. O sectarismo escancarou-se com a eclosão da Guerra Civil Síria, com os alauítas formando milícias pró-governo, as shabihas, resposáveis por torturas e execução de opositores, que são em sua esmagadora, sunitas. Grupos extremistas como a Frente al-Nusra, Ahrar al-Sham e Daesh antagonizam e pregar a morte da minoria alauíta, que compõem, no máximo, 12% da população síria na primeira década do século XXI. Islamizar ou não islamizar, eis a questão diria Shakespeare, se ele fosse alauíta (teria o nome de Sheykh Pir), uma vez que esse é o dilema que intriga não apenas o atual presidente sírio, Bashar al-Assad, filho de Hafez, como também à alta cúpula alauíta do Baath Sírio. Os alauítas não querem – e não irão – islamizar-se mais, enquanto Bashar, estigmatizado por ser alauíta, tem na islamização a possível solução de seus problemas.Com cada vez mais jovens alauítas sendo mortos na guerra, uma geração perdida, e a crise de identidade e de sectarismo em ebulição, o futuro e a sua sobrevivência dos alauítas volta a ser o que sempre foi: difícil.

 

Referências bibliográficas:

- Yaron Friedman, The Nuṣayrī-ʿAlawīs - An Introduction to the Religion, History and Identity of the Leading Minority in Syria (2010).

- Matti Moosa, Extremist Shi'ites - The Ghulat Sects (1987).

- T. E. Lawrence. Seven Pillars of Wisdom, Book 5, Chapter 58.

-http://joshualandis.oucreate.com//syriablog/2004/10/asads-alawi-dilemma.htm

-https://www.theatlantic.com/magazine/archive/1993/02/syria-identity-crisis/303860/