Como uma religião que engloba absolutamente todos os aspectos da vida, o Islã naturalmente tem instâncias que dizem respeito às mais diversas questões relacionadas a animais e suas relações com os seres humanos – notadamente a manutenção de animais domésticos. Gatos – um dos dois grandes animais domésticos – por exemplo, são tidos em alta estima pela tradição islâmica em geral, sendo até mesmo recomendada sua posse como algo benéfico.

Já os cães, o outro tipo mais popular de amigo animal do homem, enfrentam até hoje uma certa polêmica relacionada à sua posse e cuidado pelos fiéis muçulmanos, enfrentando, em muitos casos, até mesmo a rejeição e o rechaço por parte de alguns fiéis e líderes religiosos.

Todavia, para além da simplificação massiva que muitos líderes religiosos modernos colocam sobre a questão, as opiniões dentro do Islã sempre foram extremamente diversas e até mesmo opostas, tanto por parte de teólogos e estudiosos da tradição, do Alcorão e dos Hadith, quanto por parte dos juristas.

Começando pela pedra angular da religião islâmica, o Alcorão Sagrado, vemos que, apesar de mais de 200 versículos no Alcorão tratarem de animais (e seis capítulos dele tenham nomes de animais), a vida animal não é um tema muito retratado no Alcorão.

O Alcorão ensina que Deus criou os animais da água e que Ele cuida de todas as suas criaturas e as provê, sem distinção, de modo que “toda a criação louva a Deus”, mesmo que esse louvor não seja expresso em linguagem humana.

Assim como os humanos, os animais formam “comunidades”. No versículo 6:38, o Alcorão aplica o termo ummah, geralmente usado para significar "uma comunidade religiosa humana", para gêneros de animais. Deus prescreveu leis para cada espécie, de modo que uma vez que os animais seguem as leis que Deus ordenou para eles, eles devem ser considerados "muçulmanos", assim como um ser humano que obedece às leis prescritas para os seres humanos (lei islâmica) é um muçulmano – cada um formando, assim, uma ummah.

Com relação especificamente à raça canina, o Alcorão os menciona em apenas três ocasiões:

"Consultar-te-ão sobre o que lhes foi permitido; dize-lhes: Foram-vos permitidas todas as coisas sadias, bem como tudo o que as aves de rapina, os cães por vós adestrados, conforme Deus ensinou, caçarem para vós. Comei do que eles tivessem apanhado para vós e sobre isso invocai Deus, e temei-O, porque Deus é destro em ajustar contas." [Surata al-Maidah, 4]

“(Se os houvesses visto) terias acreditado que estavam despertos, apesar de estarem dormindo, pois Nós os virávamos, ora para a direita, ora para a esquerda, enquanto o seu cão dormia com as patas estendidas, à entrada da caverna. Sim, se os tivesses visto, terias retrocedido e fugido, transido de espanto!” [Surata al-Kahf, 18]

"Alguns diziam: Eram três, e o cão deles perfazia um total de quatro. Outros diziam: Eram cinco, e o cão totalizava seis, tentando, sem dúvida, adivinhar o desconhecido. E outros, ainda, diziam: Eram sete, oito com o cão. Dize: Meu Senhor conhece melhor do que ninguém o seu número e só poucos o conhecem! Não discutas, pois, a respeito disto, a menos que seja de um modo claro e não inquiras, sobre eles, ninguém." [Surata al-Kahf, 22]

Como pode ser facilmente observado, os versos acima que se referem aos cães não os retratam, de maneira alguma, negativamente, sendo até mesmo positivas. Além disso, uma história se referia a um homem que foi abençoado por Deus por dar água a um cachorro sedento, a outra era uma prostituta que encheu seu sapato com água e deu a um cachorro, que estava com a língua rolando de sede. Por esse feito, ela recebeu a recompensa final: o Paraíso eterno.

No entanto, os estudiosos islâmicos tendem a considerar a saliva dos cães como impura, geralmente baseados nas tradições islâmicas e proféticas dos Hadith, tais como este, narrado por Ibn 'Umar:

“O Profeta () disse: ‘Quem mantém um cão (de estimação) que não é um cão de guarda nem um cão de caça, receberá uma dedução diária de dois Qirat de suas boas ações’."

[Sahih al-Bukhari, Volume 7, Book 67, Number 389]

E, sobre a saliva do cão, Ibn Mughaffal relatou:

“O Mensageiro de Allah () ordenou o sacrifício dos cães (específicos), e então disse: E quanto a eles?( i.e. sobre outros cachorros) e então concedeu (permissão para manter) o cachorro para caça e para (segurança) do rebanho, e disse: Quando o cachorro lamber o utensílio, lave-o sete vezes e esfregue-o com terra na oitava vez.” [Sahih Muslim 280a. Book 2, Hadith 119]

Isso significa, praticamente, que qualquer coisa lambida por um cachorro precisa ser lavada dessa maneira, configurando um forte indício de que a saliva – e não o cão em si – é impura. Muitos juristas islâmicos permitiam a posse de cães para pastoreio, agricultura, caça ou proteção, mas proibiam a posse por motivos que consideravam frívolos.

Essa questão de utilidade parece estar ligada à questão dos relatos corânicos: não é surpresa que os primeiros muçulmanos tivessem muitos cachorros. A maioria deles mantinha grandes rebanhos de ovelhas e cabras, e os cães ajudavam a manejar e proteger esses outros animais, impedindo-os de fugir e afugentar possíveis ladrões e predadores. Ovelhas e cabras eram o alimento e o capital desses primeiros muçulmanos, e os cães ajudavam a proteger esses investimentos.

Essas diferentes evidências acabaram por gerar diferentes opiniões nas diferentes escolas de jurisprudência (madhabs) do Islã Sunita e Xiita. Os dois melhores exemplos são as escolas fundadas por Imam Malik ibn Anas, a Maliki; e a fundada por Imam Abu Hanifa, a Hanafi. A escola Maliki distingue entre cães selvagens e cães de estimação, considerando apenas a saliva dos cães como impura; por outro lado, a Hanafi considera os cães em sua totalidade como impuros (najis), vetando seu uso para qualquer coisa que não seja utilitária e limitando ao máximo o contato com eles.

O jurista andaluz Ibn Hazm (994 – 1064), fundador da já extinta madhab Zahiriyya dizia, por sua vez, que “Se os cães fossem impuros, o Profeta (sas) assim o teria dito”, justificando assim a permissibilidade dos cães em lares.

Hoje em dia, Sheykh Said al-Kamali comenta sobre os Hadith narrados sobre cães em quatro réplicas:

Primeiramente, não necessariamente lavamos apenas o que é najis, mas também aquilo que achamos nojento ou sujo. Por exemplo: o catarro, que num consenso geral dos estudiosos islâmicos não é najis, sempre será lavado, seja ele encontrado na pele, roupas e etc. Ou seja: não é porque lavamos algo que isso obrigatoriamente será impuro.

Em segundo lugar, sob o próprio testemunho do Alcorão, é permitido o consumo da carne dos animais (desde que estes sejam também permitidos) quando caçados pelos animais treinados por seus donos; entre os mais comuns, encontramos os cães, que abaterão as presas com a boca, e, obviamente, haverá saliva do cão na carne da caça. E não há nenhuma evidência dentro da Sharia especificando que o animal deverá ser lavado sete vezes antes de ser preparado e consumido. Além disso, é explicito que o animal abatido será halal através da Tasmiyah (‘Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso’ – obrigatoriamente dito antes de qualquer abate animal para consumo) antes deste ser caçado.

Assim, as diferentes opiniões das madhabs acabaram moldando as atitudes das culturas que a elas aderiram: no Norte da África, região de predominância da Escola Maliki, houve por parte dos povos locais a adoção (ou melhor, a continuação) dos costumes de deter cães domesticados perto de si.

Já em sociedades cuja predominância era da Escola Hanafi, como Turquia, Paquistão e Índia, houve uma quase que total rejeição dos cães como sendo intrinsecamente impuros e indesejáveis.


Gravura indiana da época Mogol retratando um homem sendo perseguido por cães de rua. No Império Mogol, predominava a madhab Hanafi.

Recentemente, na Malásia, em 2016, o Departamento de Desenvolvimento Islâmico da Malásia, um órgão governamental religioso, proibiu o uso do termo cachorro-quente para se referir à comida com esse nome. Ele pediu aos estabelecimentos de venda de alimentos que renomeassem seus produtos ou corressem o risco de recusar a certificação halal. A Malásia é predominantemente seguidora da escola islâmica Shafi’i, que detém uma opinião parecida com a Hanafi sobre a pureza dos cães (assim como a Hanbali).

Na Faixa de Gaza, Palestina, a organização extremista islâmica Hamas - seguidora da heresia salafista, que rechaça os cães -, proibiu o passeio público com cães em maio de 2017, afirmando que a decisão visava "proteger nossas mulheres e crianças". Oficiais do Hamas afirmaram que a proibição foi em resposta a um aumento no número de cães passeando nas ruas, que eles afirmaram ser "contra a cultura e as tradições em Gaza".

É nesse fogo cruzado jurisprudencial que, ainda na Alta Idade Média, o morador de Bagdá e escritor de origem persa Ibn al-Marzuban (falecido em 921), viveu. Abu Ahmad 'Abd al-Rahman ibn 'Ali ibn Marzuban Tabib Marzubani, foi um oficial e médico que serviu à dinastia dos Búidas. Ele era um discípulo do grande polímata e também médico Ibn Sina.

Não se sabe muito sobre ele e sua vida primeva, apesar de ter traçado sua descendência até uma família nativa de Isfahan. No entanto, durante a maior parte de sua vida, viveu em Bagdá e no Khuzistão, em vez de sua cidade natal. Durante sua juventude, foi educado em ciência e direito religioso. Mais tarde, se tornou o juiz de Shushtar e o chefe do famoso Hospital al-'Adudi em Bagdá.

Um discípulo de um dos maiores e mais prolíficos médicos do mundo, escreveu um curioso e inusitado livro, conhecido em árabe como Fadl al-Kilab. Ele começa reclamando de como os seres humanos estão piorando e como não se pode mais confiar ou depender deles. No entanto, ele logo passa a falar sobre cachorros, chegando à conclusão de que eles são, em si, melhores do que os homens – ecoando o que muitos dizem hoje em dia, que “animais são melhores que gente”, ou então “prefiro bicho [sic] do que gente”.

A obra de Ibn al-Marzuban é uma coleção de dezenas de histórias e poemas sobre caninos, com o objetivo de mostrar “a fidelidade natural do cão, sua simpatia inata e defesa ferrenha de seu mestre; também sua experiência, paciência, nobreza, desenvoltura maravilhosa e sua utilidade excepcional.”

As histórias muitas vezes revelam que os cães eram mantidos por pessoas no Oriente Médio medieval – em muitos casos como cães de guarda ou para uso na caça, mas também como companheiros e animais de estimação (algo que para muitos juristas seria abominável e sujo). 


Os muçulmanos em todo o mundo estavam em contato diário regular com os muitos cães em seu meio. Eles reconheceram como os caninos eram úteis como guardas e ajudantes.

Muitas das histórias relatadas por Ibn al-Marzuban são sobre cães que salvaram a vida de seus donos. Por exemplo, ele relata sobre um funcionário de Nishapur que relata que uma vez ele estava voltando para casa de uma viagem com seu cachorro, quando foi atacado e roubado. O homem teve as mãos e os pés fortemente amarrados e deixado para morrer em uma ravina seca. Ele segue explicando:

“Desisti de toda esperança de sobrevivência. Então, esse cachorro se sentou comigo, depois saiu e foi embora. No entanto, logo voltou para mim, trazendo um pão e colocando-o na minha frente. Comi o pão e rastejei aos poucos até um lugar onde havia um pouco de água que bebi. O cachorro ficou comigo a noite toda, uivando até de manhã. O sono me venceu. Não consegui ver o cachorro, mas ele logo voltou trazendo um pão para eu comer. Fiz o mesmo que tinha feito no primeiro dia e aí, no terceiro ele foi embora. Eu disse a mim mesmo: ‘Ele foi me trazer um pão’. Logo ele voltou com um pão e jogou para mim. Antes que eu terminasse de comer o pão, meu filho estava lá em cima de mim, chorando. Ele disse: ‘O que você está fazendo aqui? O que aconteceu com você?’ Ele desceu, desamarrou minhas amarras e me tirou da ravina. Eu disse a ele: ‘Quem o guiou até aqui e como você sabia onde eu estava?’ Ele respondeu: “O cachorro vinha até nós todos os dias, então colocamos um pão para ele como sempre, mas ele não comeu. Ele esteve com você e ficamos surpresos ao vê-lo voltar sem você. Levava os fardos na boca, mas sem comê-los saía correndo. Ficamos surpresos com isso, então eu o segui até encontrar você. Esta é a minha história e a do cão.”

Outras histórias elogiam os cães que eram bons para caçar ou guardar casas. Muitos dos relatos observam a utilidade dos cães à noite, quando eles ficavam acordados e vigiavam os invasores. Um homem de Medina até escreveu este poema sobre seu cachorro Muq, elogiando-o por suas habilidades marciais:

Ó Muq, que nunca proves a miséria que a vida pode trazer!
Que você nunca tenha que beber água barrenta!
Sua cabeça compacta é como um moinho de sementes
e suas garras podem rasgar barrigas em pedaços!
O seu silêncio mostra raiva, seu latido, a ferocidade;
mesmo que ele esteja com fome, ele não será atraído para a amizade.
Sua intenção é morder e seu ataque é a própria morte;
qualquer um que passe por seu território ficará impressionado!
Ele entra em ação mais rápido do que a espada e a lança;
ele é mais eficaz do que flechas e dardos.
Os temidos turcos, os Daylami,
os Zanj, também os generais bizantinos –
todo este exército, se eles passarem por seu território,
ele os dispersará!
Se algum exército de heróis passa por ele,
suas camelas se agacham de medo.”

O livro de Ibn Marzuban (que está inclusive traduzido ao inglês) é, então, uma grande quebra com o estereótipo que existe de que o Islã, enquanto uma totalidade, é avesso aos cães, do mesmo modo que a mesma visão equivocada também é quebrada quando a pessoa se aprofunda nas questões internas do Islã e visualiza as questões e opiniões que existem não apenas sobre o status do “melhor amigo do homem” – que, no Islã, nunca deixou de ser amigo – mas também sobre outras questões relativas à fé e vivência islâmicas. Ibn Marzuban morreu em 1006 em Shushtar.

Bibliografia

  • McAuliffe, Jane Dammen (2001 - 2006) Encyclopaedia of the Qurʾān. Brill Publishers.
  • "Community and Society and Qur'an" in the Encyclopaedia of the Qur'an (vol. 1, p. 371)
  • Khaled Abou El Fadl (2004). "Dogs in the Islamic Tradition and Nature". Encyclopedia of Religion and Nature.
  • Mikhail, Alan (2017). "The moment in history when Muslims began to see dogs as dirty, impure, and evil". Quartz.
  • Mikhail, Alan (2017) Dogs in ancient Islamic culture.
  • "EBN MARZOBĀN, ABŪ AḤMAD ʿABD-AL-RAḤMĀN – Encyclopaedia Iranica". www.iranicaonline.org. Encyclopedia Iranica.
  • Hot dogs 'must be renamed' in Malaysia, says religious government body - 19 October 2016. BBC.com
  • Wilford, Greg (2017) Hamas bans dog walking through the Gaza Strip to 'protect women and children'. Independent.uk.