A questão da identidade de Jesus tem sido, pelo menos nos últimos dois séculos, um tópico altamente debatido e uma fonte de controvérsias. Naturalmente que, pela expressão da mensagem do Cristianismo – que tem ao judeu médio-oriental de nome “Yeshua”, aportuguesado como “Jesus”– essa questão esteja envolvida com as mais diversas facetas, fases e acontecimentos da História, sejam eles bons ou ruins.

Entre as muitas abordagens para o questionamento da identidade de Jesus no último século – passando pelo Neocolonialismo, o Nazismo, a ascensão do Sionismo e outros eventos que influenciaram nesse debate - destaca-se uma indagação intrigante e, podemos dizer, ousada: "Era Jesus um palestino?" Essa interrogação, apesar de sua aparente simplicidade, abre as portas para um exame profundo da história, cultura e contexto geográfico que moldaram a vida desse judeu que se tornou um profeta cristão e muçulmano e, consequentemente, do mundo de hoje.

O debate sobre a etnicidade e a “nacionalidade” (tendo vivido num mundo onde o conceito moderno de estado-nação sequer existia) de Jesus é um tema complicado e carregado, refletindo não apenas divergências teológicas, mas também considerações históricas, arqueológicas, semânticas, sociopolíticas, filológicas, culturais e até genéticas.

Nesse âmbito, as descobertas das ciências modernas com relação à genética dos povos da região se unem a fatos antigos bem conhecidos – como as origens etimológicas da localidade de muitos nomes encontrada entre o Líbano, o Egito e a Jordânia, em suma, a região historicamente disputada onde Jesus viveu, torna-se crucial para entendermos melhor sua identidade controversa.

Neste artigo, mergulharemos nas diversas perspectivas sobre a palestinidade de Jesus, explorando os fundamentos bíblicos, os registros históricos e as interpretações teológicas que contribuem para essa discussão. Ao fazê-lo, buscamos lançar luz sobre um tema que transcende as fronteiras da teologia, abordando aspectos culturais, linguísticos, históricos e até genéticos, que continuam a ecoar nos diálogos contemporâneos sobre a figura universal daquele que talvez seja o ser humano mais famoso a já andar sobre a Terra - Jesus de Nazaré.

A aparência de Jesus

“Se alguém me perguntar como era o Jesus histórico, responderei que ele parecia palestino, assim como eu [...]”

- Reverenda Niveen Sarras, pastora da Igreja Luterana Immanuel em Wasau, Wisconsin (EUA).

Um dos aspectos sobre Jesus de Nazaré que mais contribuíram para seu debate enquanto homem, ideia e encarnação divina é sem dúvida aquele da sua aparência, um tópico que pode funcionar muito bem como introdução ao ensaio aqui apresentado e seus tópicos posteriores.

Inicialmente Jesus foi representado indiretamente por símbolos pictográficos como o ichthys (um desenho de peixe), desenhos de um pavão ou uma âncora. O Labarum ou Chi-Rho – as iniciais gregas de para “Jesus Cristo” foram um desenvolvimento posterior.

Esses símbolos, assim como as primeiras representações identificadas como sendo relacionadas a figura de Jesus são encontradas no contexto da difusão da religião cristã pelo Império Romano, nos primeiros três a quatro séculos após sua morte (tradicionalmente tida como na terceira década após seu nascimento, em meados de 30 d.C.).

Elas eram geralmente encontradas em tumbas e casas privadas – os tradicionais locais de culto dos cristãos, que até então sofriam rechaço por parte da população e autoridades locais romanas e seus associados – e o retratam, muitas vezes, como um homem – por vezes jovem – romano comum, usando vestes simples que os cidadãos usavam e aludindo a temas bíblicos como a figura do “Bom Pastor” do livro de Salmos.

Não muito tempo depois, as representações de Jesus começariam a ser feitas com detalhes mais “orientais”: cabelos longos e também uma barba generosa, característica associada aos sábios e piedosos na religião judaica, a qual Jesus era membro. Esse novo padrão, mais “fiel” podemos dizer, à figura histórica de Jesus com relação à sua origem médio-oriental, viria a se tornar prevalente nos séculos seguintes.


Uma pintura mural da catacumba de Commodilla. Uma das primeiras imagens barbadas de Jesus, final do século IV.

Essas representações, no entanto, não estavam longe de polêmicas nestes primeiros séculos do Cristianismo: a disputa entre os aniconistas (que não toleravam imagens nas igrejas, e, portanto, opunham-se a imagens de Jesus) disputavam com os iconistas (influenciados pela religião greco-romana e, portanto, favoráveis ao uso de imagens) a validade do uso de imagens sacras e sua feitura.

Pais da Igreja (teólogos primitivos) como Justino (falecido em 165) e Tertuliano (falecido em 220), Irineu (falecido em 202), Clemente de Alexandria (falecido em 215), Lactâncio (falecido em 240-c. 320) e Eusébio de Cesareia (falecido 339) desaprovaram representações em imagens de Jesus. O 36º cânone do Sínodo de Elvira (atual Espanha) feito pelos bispos da Hispânia romana em 306 d.c diz:

"Foi decretado que não haja quadros nas igrejas, e aquilo que é adorado ou reverenciado não seja pintado nas paredes [...]”

Apesar da aparente vitória iconista na igreja cristã, consolidada com o apoio imperial após a adoção do Cristianismo como religião oficial no final do século IV, haveriam ainda diversos casos de continuidade do aniconismo e de ressurgência do mesmo através do favor imperial: um exemplo do primeiro caso são as igrejas orientais, como a Igreja Armênia que, autocéfala e fora de comunhão com a Cristandade greco-romana desde o Concílio de Calcedônia (451), viria a manter-se anicônica até o advento da Idade Média. No segundo caso, temos o surgimento do movimento iconoclasta que, com o apoio de diversos imperadores como Leão III Isauro (717 – 741) e seus sucessores, até que o Segundo Concílio de Niceia (781) colocasse fim à questão dos ícones – ao menos no mundo bizantino – legislando a seu favor, no que hoje é comemorado pelas igrejas da Comunhão Ortodoxa como o “Triunfo da Ortodoxia”.


Nem sempre as imagens de Cristo foram bem-vindas: além das controvérsias da Igreja Primitiva, o Iconoclasmo Bizantino marcou seu lugar na história. Essas controvérsias viriam a tomar lugar, novamente, no Ocidente com as Reformas Protestantes.

Com esse triunfo, a imagética em ícones de Jesus passou a se padronizar pelo mundo bizantino, enquanto que no Ocidente Latino (que viria a separar-se do resto da Igreja Cristã Calcedoniana em 1054 com o Grande Cisma), a arte em estátua passou a ser incorporada cada vez mais ao culto latino, embora o aniconismo ainda fosse bastante presente em muitas áreas do Ocidente (como Hispânia e Norte da Europa).

Ícones como o famoso Pantakrator se tornara um referencial para a arte sacra no mundo grego e, posteriormente, para o resto da Cristandade – um cristo de aparência mais semita, com cabelos e barbas longas, que alguns também associam a uma possível incorporação de elementos helenistas, como era comum nos primeiros séculos: de acordo com o historiador de arte Paul Zanker, o tipo barbudo tem cabelo comprido desde o início e uma barba relativamente longa (contrastando com a barba e cabelo "clássicos" curtos sempre dados a São Pedro e à maioria dos outros Apóstolos); está especificamente associado a filósofos como Eufrates, o Estoico, Dio de Prusa e Apolônio de Tiana (este último, um neo-pitagórico chamado de “o Jesus pagão” ou “o Jesus helenista”), alguns dos quais se alegava terem realizado milagres.


Cristo “Pantakrator” de um Monastério do Monte Sinai, datado do século VI: uma representação que viria se tornar padrão no Oriente e em grande parte do Ocidente.

A partir do começo da Idade Média, com a evangelização dos povos do Norte da Europa, entramos numa fase interessante das representações cristológicas ocidentais: essa evangelização coincide com o estabelecimento do iconismo como norma também na Igreja Latina, o que leva a uma adaptação artística da mesma para com o gosto e o universo dos povos norte-europeus. É comum ver representações de Cristo como um guerreiro germânico, com cara características por vezes também germânicas, como cabelos claros e pelo igualmente clara.

Apesar da pouca sofisticação desse tipo primevo de arte ocidental, tal adaptação – ou concessão – artística aos povos principalmente nordo-germânicos viria a criar raízes na imagética latina; seria aí a gênese do famoso “Jesus branco e loiro de olhos azuis” que posteriormente viria a se popularizar na Igreja Latina, principalmente após a Renascença (séculos XIII – XVI).

Nesse âmbito da Renascença italiana, representações do conceito de “belo” da época foram incorporadas à arte cristológica, sendo uma das primeiras formas (senão a primeira) de uma arte sacra ocidental sofisticada que pudesse estar par-a-par com a iconografia do Oriente, sendo assim prontamente patrocinada pela Igreja Católica Romana. Algumas das representações mais conhecidas de Cristo, desde a “Última Ceia” de Leonardo da Vinci até o “Juízo Final” de Michelangelo na Capela Sistina, foram produzidas durante este período.

Foi justamente nesse contexto do Renascimento que o whitewashing de Jesus verdadeiramente tomou forma – incluindo sua total alienação de seu background judaico em favor de um novo, puramente cristão e europeu (momento histórico esse que coincidia com o início da limpeza étnica de muçulmanos mouriscos e judeus sefarditas na Península Ibérica, no final do século XV).

Por exemplo, na Madonna e o Menino com os Santos Jerônimo e Maria Madalena, de Neroccio de’ Landi (1447–1500), mostra Jesus, a Virgem Maria e Maria Madalena retratados de maneira alva, loira e totalmente europeia. A presença de um santo cristão (São Jerônimo) completa um cenário estranho aos três primeiros personagens citados e sua ambientação. Outro exemplo é o de Madonna e o Menino com os Santos Francisco e Clara, de Cima da Conegliano (1459-1517), que não só apresenta o mesmo anacronismo de santos cristãos posteriores, mas também retrata Jesus como uma criança incircuncisa – um outro anacronismo que contraria a própria narrativa bíblica sobre Jesus (um evento importante na liturgia da própria Igreja Cristã, universalmente), que, como judeu, foi circuncidado no Templo.


“Noli me tangere” de Fra Angelico (1395 – 1455), representando a ressureição de Cristo: tanto Jesus quanto Maria Madalena são representados com feições estereotipicamente europeias, com cabelos e feições claras.

Houveram até mesmo tentativas de se justificar essas tendências através de falsificações: a chamada “Carta de Lentulus”, falsamente atribuída a uma figura da antiguidade, mas de fato escrita no século XIII, também retrata Jesus como um homem bonito, alto e admirável, com olhos cor de avelã e cabelos claros na altura dos ombros. O rosto de Jesus não tinha rugas nem manchas e a sua barba era curta – em oposição às representações mais tradicionais e “orientais” com barba longa ou média. Esta carta se espalhou pela Europa Ocidental no século XIV e influenciou retratistas e arte sacra nos tempos que se seguiram.

Os missionários da Europa Ocidental levaram a imagem de Jesus caucasiano aos continentes colonizados e transformaram o Jesus branco e europeu numa espécie de “ideologia” colonial e neocolonial. À medida que os europeus colonizavam terras cada vez mais distantes, trouxeram consigo a imagética herdada do Renascimento e aperfeiçoada pelos estilos do Barroco e do Rococó. Missionários jesuítas estabeleceram escolas de pintura que ensinavam aos novos convertidos a arte cristã com modo, técnicas e, é claro, aparências europeias.

Uma pintura de 1695 do artista Nicolas Correa de Santa Rosa de Lima, a primeira santa católica nascida na “Nova Espanha” (onde hoje é o atual Peru), mostra seu casamento espiritual alegórico com um Cristo loiro e de pele clara – basicamente aquilo que os colonizadores espanhóis queriam ao impor o Catolicismo Romano aos nativos americanos.


Santa Rosa de Lima, por Nicolas Correa: um literal retrato do colonialismo espanhol.

Os missionários abriram internatos para doutrinar os estudantes colonizados a aceitarem a dominação colonial. Assim, as pessoas colonizadas associaram naturalmente o domínio branco ao Jesus europeu e ao Cristianismo, o que ne, sempre terminou bem – na China, as tentativas de se inserir uma Cristianismo e um Cristo à europeia resultaram no ridículo e na ojeriza tanto por parte dos nativos quanto por parte dos governantes das Dinastias Ming e Qing, que não hesitaram em banir e até mesmo perseguir os missionários europeus e seu proselitismo em diversas ocasiões.

Durante a fase do neocolonialismo nos séculos XIX e XX, o Cristianismo e o Cristo europeu foram usados como método de efetivar o controle das metrópoles sobre suas colônias africanas e asiáticas, “amansando” os nativos e lhes dando um motivo para lhe serem gratos: o Jesus loiro os tinha vindo salvar da danação eterna através de seus servos brancos.

Avançando século XX adentro, a “desjudaização” de Cristo alcançou seu sinistro ápice no Cristianismo Positivo, uma tentativa da Alemanha Nazista (1933 – 1945) de purgar a religião cristã alemã de suas indesejáveis origens judaicas, apresentando Jesus Cristo como um nobre ariano que lutava contra os judeus ao seu redor. Esse tipo de insanidade teológica é seguida até hoje por pequenos grupos neonazistas estado-unidenses que formam o movimento Christian Identity, muitos dos quais creem em um “Cristo Nórdico” literal e ontologicamente.

Tendo isso em vista, precisamos dizer o que muitas vezes é óbvio, mas não prestamos atenção (talvez não tenhamos prestado atenção suficiente na catequese ou escola dominical): o Novo Testamento em si não nos diz como era Jesus Cristo. Em vez disso, ele enfatiza a sua identidade como judeu e descendente do rei e Profeta Davi. Seus pais eram judeus e ele nasceu em Belém, na Judeia, vindo a crescer em Nazaré, terra de sua família, na Galileia. Então isso significa que, naturalmente, Jesus deveria ser igual a quase todas as outras pessoas de sua época. Agora, como elas eram? É o que tentaremos descobrir.

"Jesus viveu como um judeu palestino que, acreditam os estudiosos, sem dúvida tinha características físicas e faciais semelhantes às dos palestinos de hoje - pele escura, olhos e cabelos escuros."

[Blezard, 2021]

A evidência geográfica

Para primeiro entendermos um povo – ou mais de um – precisamos, antes de tudo, entender o espaço em que este ou estes povos vivem. O espaço do qual falamos é uma estreita faixa de terra de um ambiente e clima variados: encerrada por desertos ao Sul, Leste e Nordeste, ao Norte encontram-se colinas e vales férteis como aqueles que se localizam em seu interior: uma costa plana que é seguida por montanhas, platôs e vales, com um rio cruzando seu interior, passando por dois grandes lagos.

Essa geografia ajudou essa região – cujas “fronteiras” nunca foram muito bem definidas, a ter uma diversidade grande de povos que nela habitaram e transitaram, com sua localização privilegiada ligando a África ao Levante e à Ásia Menor rendendo-lhe também relevância econômica.

Seu nome mais antigo é Canaã, e os povos semitas que lá habitavam eram e ainda são chamados de cananeus – uma das referências mais antigas a esse nome são coleções de cartas cuneiformes acadianas que chamam a costa sul do Levante de Kanana. Os egípcios, por sua vez, que controlaram por vezes o local (chegando a disputar seu controlo com o Império Hitita no século XIII a.c) chamavam o local de Rejtenu, ou Retenu.

Aos povos nativos de Canaã, como os heteus, heveus, jebuseus e vários outros, viram a adentrar naquele espaço ou outro povo, também de origem semítica: os hebreus. Com uma religião distinta de seus vizinhos (politeístas), os hebreus, detentores de uma forma ainda primitiva de monoteísmo, acreditavam que aquela terra lhe havia sido dada por seu Deus para que habitassem.

Após nela ficarem por um período de tempo (por volta do segundo milênio a.c), os hebreus teriam migrado para o Egito, onde ficaram por séculos, tornando-se escravos nesse tempo. Após sua libertação pelo Profeta Moisés – que viria a estruturar a religião daqueles que se chamavam de “israelitas”, ou “filhos de Israel” em homenagem a um de seus patriarcas, os hebreus seguiram novamente a Canaã. Lá chegando, por volta de 1400 a.c, eles encontraram uma terra habitada e já lotada de povos, prosseguindo assim para sua conquista por meio da força. A esta terra, dariam o nome geral de Eretz Yisrael, ou “a Terra de Israel”.

Todavia, esse nome, Israel, bem como outros nomes como os das tribos israelitas (Judá, Efraim, Manassés, Dã etc.) não eram usados senão dentro da própria comunidade israelita; em outras palavras, apenas os falantes da língua hebraica o chamavam assim. Desse modo, a região continuou a ter outros nomes, usados por seus vizinhos, e um deles – que se tornaria generalizado, viria a surgiu não muito tempo depois dessa conquista: Palestina.

O termo "Peleset", considerado pelos estudiosos o mais antigo relacionado ao nome “Palestina” é encontrado em cinco inscrições hieroglíficas egípcias referentes a um povo vizinho, a partir de c. 1150 AC durante a Vigésima Dinastia do Egito. A primeira menção conhecida está no templo Medinet Habu, que se refere aos Peleset (então como um gentílico, não uma denominação geográfica) como sendo um grupo entre aqueles povos que lutaram contra o Egito durante o reinado de Ramsés III.

Esses povos eram ninguém menos que os infames “Povos do Mar”, cujas invasões misteriosas (e brutais) aos centros urbanos e civilizações do Mediterrâneo Oriental entre 1200 e 900 a.c causaram o colapso da Era do Bronze, levando consigo civilizações inteiras como o Império Hitita.

O reinado de terror dos Povos do Mar foi freado pelos egípcios que, após os derrotarem em diversas ocasiões (a mais memorável delas é justamente aquela representada em Medinet Habu, com Ramsés III os derrotando na Batalha do Delta em 1175 a.c), o restante de alguns desses povos, então prisioneiros, foram realocados. Um deles foram os peleset, que foram enviados para Canaã numa localidade não especificada.

A Bíblia Hebraica nos fornece informações interessantes sobre o assunto: aparentemente do nada, surge um povo chamado de phelishtim, traduzido como “filisteus” na costa sul de Canaã, habitando em cidades como Gaza, Ashdod, Gat e muitas outras. Esse povo que, como os Povos do Mar, dominavam a arte da metalurgia com ferro, conseguiram subjugar pela força as tribos israelitas – pouco unidas entre si – durante muito tempo, tornando-se ferrenhos inimigos dos israelitas. Hoje, os historiadores geralmente identificam os peleset derrotados e realocados pelos egípcios em Canaã com os filisteus.


“Peleset” aprisionados pelos egípcios, num relevo em Medinet Habu: após sua derrota, foram assentados em Canaã, provavelmente dando origem aos “filisteus” da Bíblia e ao nome “Palestina”.

Do outro lado do Levante, sete inscrições assírias conhecidas referem-se à região outrora conhecida como Kanana pelos acádios, como "Palashtu" ou "Pilistu", começando com Adad-nirari III por volta de 800 a.c até um tratado feito por Esharhaddon mais de um século depois. Nem as fontes egípcias nem as assírias forneceram limites regionais claros para o termo.

O primeiro uso claro do termo Palestina para se referir a toda a área entre a Fenícia e o Egito foi na Grécia antiga do século V a.c, quando o historiador e geógrafo Heródoto escreveu sobre um "distrito da Síria, chamado Palaistinê" (Συρίη ἡ Παλαιστίνη καλεομένη) em sua obra As Histórias, que incluíam, além da costa onde habitavam os filisteus, as montanhas da Judeia e o vale interiorano do Jordão. Aproximadamente um século depois, Aristóteles usou uma definição semelhante para a região em sua Meteorologia, na qual incluiu também o Mar Morto. Escritores gregos posteriores, como Polemon e Pausânias, também usaram o termo para se referir à mesma região, o que foi seguido por escritores romanos como Ovídio, Tibulo, Pompônio Mela, Plínio o Velho, Dion Crisóstomo, Estácio, Plutarco, bem como os escritores judeus Filo de Alexandria e Flávio Josefo que, a despeito de mais de mil anos de habitação de seu povo (agora divididos entre judeus e samaritanos), não chamavam a região de “Israel”, mas sim de “Palestina”.

"Já nas ‘Histórias’ de Heródoto, escritas na segunda metade do século V a.C., o termo Palaistinê é usado para descrever não apenas a área geográfica onde viviam os filisteus, mas toda a área entre a Fenícia e o Egito - em outras palavras, a Terra de Israel. Heródoto, que havia viajado pela área, teria conhecimento em primeira mão da terra e de seu povo. Mesmo assim, ele usou ‘Palaistinê’ para se referir não à Terra dos Filisteus, mas à Terra de Israel.

[Jacobson, 2001]

Filo de Alexandria morreu apenas 25 anos antes de Jesus Cristo nascer; Flávio Josefo nasceu quando Jesus já havia (segundo a tradição cristã) morrido, em 37 d.c, vindo a falecer no ano 100 d.c. Tanto antes quanto depois de Cristo, historiadores judeus já chamavam a região de Palestina, do mesmo modo que assim ela era conhecida por seus vizinhos já a séculos. Isso não apenas nos mostra que, segundo a visão de judeus e gentios de seu próprio tempo, Jesus era um habitante de um local chamado Palestina, mas também definitivamente enterra a pusilânime afirmação de que quem teria dado este nome à “terra de Israel” teria sido o imperador romano Adriano em 136 d.c, após derrotar a rebelião do pretenso Messias Bar-Kokhba.

E não pararia por aí: durante o período bizantino, a região da Palestina dentro da Siria Palaestina foi subdividida em Palaestina Prima e Secunda, e uma área de terra incluindo o Negev e o Sinai tornou-se a Palaestina Salutaris. Após a conquista árabe-muçulmana, os nomes de lugares usados pela administração bizantina geralmente continuaram a ser usados em árabe, originando o atual e persistente “Filastin”. O uso do nome "Palestina" tornou-se comum no inglês moderno, foi usado em inglês e árabe, bem como em turco-otomano durante o Mutasarrifado de Jerusalém e foi continuado após a desintegração do Império Otomano seguindo o fim da Primeira Guerra Mundial como um nome oficial com o Mandato Britânico para a Palestina (British Mandate for Palestine).

“Eu não me oporia a que as pessoas o usassem porque historicamente ele era da Palestina - ele era um judeu palestino” [...]

- Reverendo Munther Isaac, pastor da Igreja Luterana de Belém, Palestina.

A evidência demográfica

Como pudemos já explorar um pouco anteriormente, a história demográfica da Palestina é complexa e foi moldada por vários eventos históricos e migrações. Ao longo da história, a região tem estado sujeita à influência e controlo de várias potências imperiais, levando a mudanças políticas, sociais e económicas que afetaram a composição demográfica da região. Guerras, revoltas e desenvolvimentos religiosos também desempenharam um papel demográfico significativo no incentivo à imigração, emigração e conversão.

Além dos movimentos populacionais de antes de Cristo, dos quais já falamos um pouco, há ainda aqueles que aconteceram depois: a Diáspora, cujo início se deu com a Destruição do Templo de Jerusalém em 73 d.c e se concluiu com a expulsão da maioria dos judeus da Palestina em 136 d.c. Entre os séculos IV e V d.c, a região tornou-se de maioria cristã e assim permaneceria até o século XI, quando, porém, com a conquista muçulmana do Levante bizantino no século VII, a região começou gradualmente a ser arabizada e islamizada como resultado do processo orgânico de conversão local e aculturação, combinada também com imigração de algumas tribos árabes-muçulmanas.

Muitos aldeões palestinos reivindicam laços ancestrais com essas tribos árabes que se estabeleceram na Palestina durante ou após a conquista árabe, enquanto outros traçam as suas raízes nas origens turca, norte-africana, curda, egípcia e turcomana. Alguns afirmam ascendência judaica ou samaritana com base em tradições orais.

Como vamos observar, estudos genéticos revelam que os palestinos modernos de fato compartilham continuidade genética com as populações levantinas anteriores tão antigas quanto aquelas da Idade do Bronze (incluindo hebreus) e exibem diversas e notáveis semelhanças com grupos levantinos de judeus contemporâneos e de língua árabe (mizrahim).

Em "What did Jesus look like?" (2018), Joan E. Taylor baseia-se na Bíblia, na arqueologia e na antropologia para determinar as características de Jesus, estudando ossos de judeus que datam da Palestina do primeiro século. Taylor refere-se à análise genética de homens israelitas e palestinianos que concluiu:

“[...] mais de 70% dos homens judeus e 82% dos homens palestinos… vieram dos mesmos antepassados dos últimos milhares de anos.”

[Taylor, 2018]

Em estudos genéticos recentes, haplótipos de cromossomo Y de alta resolução de árabes israelenses e palestinos revelam subestrutura geográfica e sobreposição substancial com haplótipos de judeus. Em outras palavras, os palestinos e árabes-israelenses não apenas são de fato indígenas daquela terra, mas têm mais DNA associado aos judeus bíblicos que os próprios judeus israelenses modernos em sua grande maioria.

De acordo com registos históricos, parte, ou talvez a maioria, dos árabes muçulmanos neste país descendiam de habitantes locais – ou seja, nativos, com uma continuidade histórica indígena ao lugar – principalmente cristãos e judeus que se converteram após a conquista islâmica no século VII d.C. (Shaban 1971; McGraw Donner 1981). Estes habitantes locais, por sua vez, eram descendentes da população central que vivia na área há vários séculos (como os nativos cananeus), alguns até desde os tempos pré-históricos (Gil 1992).

Acredita-se que grande parte da população palestina local nas áreas de Nablus, Ramallah e suas adjacências seja descendente de samaritanos (seguidores da religião do Samaritanismo que, assim como o Judaísmo, descendem da religião mosaica-abraâmica, mas que se separaram séculos antes de Cristo devido a discordâncias sobre o local de culto) que se converteram ao Islã, um processo orgânico e pacífico que continuou da conquista islâmica até o século XIX.


Samaritanos Palestinos orando no Monte Gerizim, na Cisjordânia: grande parte da população palestina da região onde se encontra o monte, sagrado na tradição samaritana, descende diretamente de samaritanos convertidos ao Islã. Os samaritanos, por sua vez, são descendentes ininterruptos dos hebreus que chegaram em Canaã após o Êxodo.

Nas áreas da linguística e filologia, podemos observar que o dialeto árabe palestino, como outros dialetos árabes levantinos, é uma mistura do árabe hejazi (da região do Hejaz, atual Arábia Saudita) e dos antigos dialetos árabes do norte falados no Levante antes do Islã, com um forte substrato aramaico e hebraico. Ou seja, o dialeto palestino da língua árabe é tão produto dessa mescla autóctone quanto o próprio povo e cultura palestina, tendo influências pré-islâmicas extensas e reconhecíveis – dentre elas, uma genuína influência hebraica, israelita.

Assim, vendo Jesus pelas lentes dos aspectos demográficos – etnia, história, genética e linguística – Jesus não estava nem um pouco longe de ser o que hoje se chamam de “palestinos”; muito pelo contrário, ele está mais perto que os assim-chamados judeus israelenses, que detém uma afinidade genética, cultural e linguística muitíssimo inferior (isso quando ela não é nula) à terra que hoje habitam com relação aos palestinos, a quem acusam serem “invasores árabes”. Como podemos ver, Jesus está mais próximo desses “invasores árabes” que de qualquer outro povo vivo.

"Se você igualasse Jesus aos palestinos de hoje, isso seria... [uma] compreensão estática da história. Mas... Jesus era um dos povos da [referida] terra. É isso que une Jesus aos palestinos."

- Dr. Mitri Raheb, presidente da associação luterana palestina "Diyar Consortium".

A evidência cultural

A cultura não é algo estático, ela é sempre mutável. Mas ao mesmo tempo que é mutável, tal qual uma sopa a qual são adicionados ingredientes novos, ela sempre retém algo de sua “originalidade”. Com a cultura palestina, não é diferente.

O filósofo romântico alemão Johann Gottfried von Herder (1744 – 1803) formulou diversos conceitos em seus estudos sociológicos: para ele, as características de um povo eram definidas por uma junção de fatores que ultimamente eram influenciados e definidos pelo ambiente em que se encontravam: o povo alemão, por exemplo, devia muitas de suas principais características ao clima e florestas de sua pátria.

Isso é interessante, pois pode nos servir de ajuda na hora de desvendarmos a questão da continuidade palestina: como poderia uma região que passou por tantas invasões, destruições, movimentos populacionais e imigração de diferentes backgrounds étnicos continuar sendo, no final, uma mesma?

Se formos por Herder, veremos que o ambiente da Palestina – tanto natural quanto societal – serve como uma força antropofágica, que acolhe diferentes povos e os adapta, com suas culturas, ao ambiente natural do local e também à sua já formada ambientação cultural, societal e étnica. Em outras palavras, esse acolhimento resulta, através de um processo muitas vezes longo, em aculturação e miscigenação – é exatamente por isso que há uma continuidade dos palestinos não apenas com um único povo antigo, como árabes ou cananeus, mas com basicamente todos os povos antigo que por lá passaram.


Mulheres palestinas colhendo olivas durante o período otomano (1517 – 1917): um dos vários costumes perenes dos povos da região, herdados e mantidos pelos atuais palestinos.

Sua cultura é, portanto, uma cultura resultante desse caldeirão étnico e cultural que tomou forma ao longo de milênios. Mas, se ela é a soma de tudo, então devem haver semelhanças naquilo que sabemos sobre Jesus Cristo e é narrado nos Evangelhos e aquilo que muitos palestinos vivem, ou viveram. Para isso, iremos ouvir de um palestino em si, comentando sobre uma passagem do Evangelho com base em sua vivência enquanto palestino:

“Por exemplo. . . com o paralítico no evangelho. Eles o tiraram do telhado. Mas como do telhado? Não é possível abrir o telhado! Mas o facto é que na sociedade tradicional palestina era aberto no telhado, para colocar o grão, o trigo, de lá onde é colocado na casa. . . A abertura – por isso é possível que tenham colocado o paralítico no telhado.”

[Sandford, 2014]

Ter uma perspectiva cultural indígena palestina sobre os textos evangélicos foi, portanto, considerado para ajudar uma pessoa a interpretar e compreender os textos evangélicos de uma forma mais cultural e talvez historicamente matizada. Isso não tem nada a ver com nacionalismo palestino, mas com a própria já referida continuidade histórica.

Na realidade, se formos parar para analisar as escrituras do vizinho – o Judaísmo – esse conhecimento indígena palestino estava entrelaçado com as primeiras tradições rabínicas que foram passadas adiante com a tradição oral até mesmo em obras consagradas e místicas como Sefer HaZohar, atribuído ao místico da antiguidade tardia Rabbi Shimon Bar-Yochai. Existe, por exemplo, no midrash e em outras fontes, pequenas histórias (chamadas de aggadot) sobre rabinos; algumas delas são semelhantes a histórias passadas de geração em geração entre os palestinos muçulmanos e cristãos. Das duas uma: ou o Judaísmo sofreu em seu âmago influência dos nativos da região ou os palestinos herdaram tais história dessa sua continuidade para com os hebreus bíblicos, o que certamente inclui Jesus.

”... já que os palestinos são as ‘pessoas más’, chamar Jesus de ‘palestino’ simplesmente não se enquadra na sua mentalidade e no seu pensamento, é claro.”

- Dr. Bishara Awad, presidente do Colégio Bíblico de Belém.

Jesus: galileu e judeu

Que Jesus de Nazaré era um judeu, todos sabemos e ninguém nega – a não ser uns poucos pacóvios que não são dignos de maior nota do que já lhes demos aqui. Contudo, é de se notar que, de algumas décadas para cá, têm crescido uma espécie de “supervalorização” do “Jesus judeu” não apenas por acadêmicos, mas também da própria parte de cristãos.

Isso é, de certa forma, uma guinada interessante no assunto sobre a identidade de Jesus, uma vez que até a Segunda Guerra Mundial (na realidade, até pouco depois dela), a opinião prevalente dentro do Cristianismo como um todo a respeito dos judeus enquanto povo-nação era aquela formulada já nos primeiros séculos do Cristianismo como religião institucionalizada: a de deicidas (“assassinos de Deus”, por mais ontologicamente e logicamente absurdo que possa ser) e descrentes (na revelação cristã). Tal sentimento que viria a ser enraizado nas homilias de João Crisóstomo (morto em 407 d.c), Arcebispo de Constantinopla, sobre os judeus:

“Mas não se surpreendam por eu ter chamado os judeus de dignos de pena. Eles são realmente dignos de pena e miseráveis [...] Mas a sinagoga não é apenas um bordel e um teatro; é também um covil de ladrões e um alojamento para bestas [...] Se, então, os judeus não conhecerem o Pai, se eles crucificaram o Filho [...] quem não ousaria declarar claramente que a sinagoga é uma morada de demônios? [...] Eles mataram o Filho do teu Senhor; tens ousadia para entrar com eles sob o mesmo teto?”

- João Crisóstomo, em seu sermão Adversus Judaeos.

As opiniões anti-judaicas de Crisóstomo não as primeiras na história do Cristianismo, mas foram a primeiras a serem emitidas de um alto púlpito (o de um arcebispo metropolitano) e a serem capitalizadas e difundidas na estrutura eclesial e popular, uma vez que Crisóstomo era uma espécie de Billy Graham de seu tempo, famoso por suas homilias (pregações).

Essa capitalização viria a se enraizar paulatinamente no Cristianismo, que se distanciava cada vez mais de sua origem judaica enquanto abraçava o mundo greco-romano. O resultado disso foi uma mentalidade teológica de soma-zero dentre os cristãos: somos a negação do Judaísmo, e os judeus são a nossa, enquanto não restar apenas um, não haverá paz. Daí surgiu o que hoje é tido como “antissemitismo” que, de um sentimento religioso, ganhou cada vez mais contorno étnicos, especialmente após a Inquisição e o Iluminismo.


O antissemitismo religioso na Europa foi causa constante de tormento, perseguição e massacres, conhecidos como pogroms, desde a Antiguidade Tardia até a segunda metade do século XX, após a Segunda Guerra Mundial.

O ápice do antissemitismo, como sabemos, foi o Nazismo e seu domínio sobre a Alemanha e Europa (1933 – 1945) onde tentaram divorciar o Cristianismo e Jesus da “religião mosaica”. Durante o Holocausto, os nazistas tiveram apoio maciço de colaboracionistas locais na França e no Leste Europeu, regiões imbuídas em ódio antissemita advindo dos púlpitos dos sacerdotes durante séculos.

Alguns estudiosos dizem que a reaproximação da identidade judaica de Jesus com o Jesus cristão das últimas décadas é uma reação oposta e comum ao horror perpetrado na Segunda Guerra e em séculos de pogroms e expulsões por toda a Europa desde a Antiguidade.

“Talvez esta [ênfase no Jesus judeu] seja uma reação dos teólogos europeus e americanos para compensar a má consciência que têm por toda a teologia antijudaica que estavam desenvolvendo.”

- Dr. Mitri Raheb.

Outros fatores que foram sugeridos incluem a coincidência de o interesse no Jesus judeu ter crescido especialmente após a Guerra dos Seis Dias (1967), que impulsionou a ascensão do sionismo cristão, amparado na teologia do Milenarismo (onde a volta dos judeus para a “Terra Santa”, ou seja, a Palestina, ocupa lugar especial e obsessivo) enquanto movimento de massa, apelativo particularmente à direita evangélica norte-americana, assim como o próprio aumento do apoio norte-americano ao assim-chamado Estado de Israel (Crossley 2009). Do mesmo modo, houve um grande e sonoro avanço nas relações judaico-cristãs, cujo um dos resultados mais interessantes foi o da declaração Nostra Aetate da Igreja Católica, além da remoção da oração pelos “pérfidos judeus” no ofício litúrgico católico-romano da Sexta-Feira Santa após as reformas do Concílio Vaticano II.

Essa onda de rejudaização de Jesus produziu argumentos como o da pesquisadora e historiadora Amy-Jill Levine:

“O argumento de que Jesus não é um judeu, mas um galileu e, em seguida, o corte dos judeus de hoje de qualquer ligação com o povo de Israel no final do período do Segundo Templo levam à conclusão inevitável de que os judeus não têm nenhuma conexão – histórica, étnica, espiritual – com a terra de Israel. Jesus, o Judeu, torna-se Jesus, o Galileu, e Jesus, o Galileu, torna-se Jesus, o Palestino.”

[Levine, 2007]

Pode parecer, à primeira vista, um argumento plausível, uma verdade até. Todavia, ele é uma meia-verdade grotesca e esconde um propósito ainda mais repugnante: jogar na conta dos palestinos e seu nacionalismo a descaracterização de Jesus como judeu, feita mais de um milênio a fio pela Cristandade Europeia. É um argumento com fins coloniais e, que, longe de ser uma verdade descontextualizada e manipulada, tem suas próprias problemáticas.

Uma delas e a concepção do gentílico “galileu”. Para uma pessoa que não estuda o Judaísmo, a Bíblia e todo o contexto histórico contido neles e suas nuances, “galileu” é apenas um gentílico regional como “paulista”, ou “paraense”. Para uma pessoa estudada e ciente do ambiente sociológico e religioso do primeiro século d.c da Palestina, a situação é bem diferente.

Existia, entre os judeus da Judeia central, um preconceito bem latente contra os judeus oriundos da Galileia, que eram tidos como relapsos, sincréticos, praticantes de magia e até mesmo apóstatas, tais como os samaritanos. Essa opinião judaica do primeiro século, embora seja preconceituosa, não é infundada; descobertas recentes na região da Galileia mostraram que a dieta dos galileus à época e até antes não era muito kasher (isto é, seguidora das leis dietéticas da religião judaica, chamada de kashrut), com diversos tipos de peixes e animais proibidos pela dieta kasher sendo consumidos por lá. Além disso, os galileus eram considerados ignorantes da Lei Judaica – a Halachá –, o que provavelmente fazia com que os rabinos e fariseus de Jerusalém e arredores ficassem impressionados com as pregações e respostas halachicas de Jesus, narradas no Evangelho.

Portanto, colocar Jesus como um “galileu” não é uma alienação tosca e absurda como a senhorita Levine aqui apresenta, na realidade, é uma diferenciação que era feita na época, e tinha motivos significativos para ser feita.

Um outro exemplo é encontrado ao sul da Judeia, numa região chamada Idumeia, cuja população, apesar de judia, também sofria preconceito por parte dos judeus “puros”. Os seus habitantes, os idumeus, eram descendentes de um povo que por séculos (senão milênios) foi inimigo da nação israelita: os edomitas. A Idumeia, que antes se chamava Edom (que, na Cabalá judaica, é a fonte de todo o Mal da Terra), foi convertida à força ao Judaísmo pela dinastia dos Asmoneus (140 – 37 a.c), que se revoltaram com sucesso contra o domínio helênico. Os idumeus, por seu passado edomita, eram odiados e segregados, e existiam leis rabínicas não-oficiais que desencorajavam o casamento entre os judeus idumeus e os judeus “puros”, bem como o ostracismo dos filhos de tais casamentos nos serviços das sinagogas até determinada geração.


A Palestina no tempo de Jesus: nota-se a Idumeia no extremo sul e a Galileia no extremo norte: os judeus de ambas as regiões sofriam discriminação entre os judeus da Judeia. Nota-se também a faixa da Filisteia, na costa sul, e a Samaria dos samaritanos ao norte de Judá.

Desse modo, fica claro para nós que nem mesmo havia uma definição única de “judeu” na época de Jesus, e essa definição de “judaicidade” poderia variar conforme o local em que você nascesse e sua ascendência. Isso para não citar as várias divergências dentro do Judaísmo normativo da época: Fariseus (perushim), Saduceus (tzadokim), Essênios (também chamados tzadokim, sendo uma cisma deste último) e os Helenistas. Reduzir Jesus a apenas “um judeu”, como se os judeus da época fossem um bloco monolítico é tão simplório quanto dentar desassociá-lo do Judaísmo; pior ainda é tentar associá-lo com os judeus modernos que lá habitam, que, como vimos, têm menos a ver com ele que os seus vizinhos muçulmanos.

Conclusão

Por fim, analisando todas essas diferentes perspectivas com relação à Jesus e ao povo palestino e à Palestina em si, o leitor atento compreenderá que não há anacronismo nem absurdismo algum em afirmar que “Jesus era palestino”. Pois ele era. Sua aparência era a mesma dos palestinos de hoje: típicos mediterrâneos orientais de origem semita. O local onde nasceu, viveu e morreu era chamado por todos – judeus e gentios do mesmo modo – de Palestina; era e ainda é conhecido como Palestina. A genética do povo de Jesus daquele tempo, habitando aquele espaço, é a genética do povo palestino deste tempo, habitando o exato mesmo espaço. Diversos traços da cultura do tempo de Jesus sobrevivem, hoje, na cultura palestina. Diversos traços linguísticos e histórias arcaicas sobrevivem no dialeto árabe palestino e em seu folclore. E, por fim, não há oposição alguma entre ser “judeu” e ser “palestino”: assim como haviam “judeus palestinos” antes de Jesus e depois dele, porque não seria Jesus, também, um judeu palestino?

Tendo em vista toda a discussão apresentada aqui, podemos resumir tudo em duas palavras: ódio e colonialismo. Estas são as raízes não apenas da polêmica em torno da identidade de Jesus – seja como judeu palestino ou apenas como judeu –, mas dos próprios problemas que atormentam aquela região e que tornam a frase “Jesus era palestino” tão inconveniente e rechaçada, como se fosse uma espécie de blasfêmia sendo que, na realidade, é apenas um fato histórico.

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