Poucas organizações – ainda mais organizações históricas e influentes assim – conseguiram ter uma projeção global como a Maçonaria (ou Franco-maçonaria). E, quando falamos em projeção, não dizemos apenas de presença, até porquê no tema que trataremos neste texto – a Maçonaria no Oriente Médio e no Mundo Islâmico – há, em virtude de questões recentes e atuais, uma ausência e até mesmo oposição de presença da Obra em alguns países que, todavia, têm na sua história uma marca indelével da atuação dos maçons em processos recentes e antigos.

A relação do Mundo Islâmico com a Franco-maçonaria é complicada; hoje em dia, existe um senso-comum depreciativo dos cidadãos muçulmanos, particularmente do mundo árabe, contra a Maçonaria, que frequentemente é associada ao odiado Estado de Israel, ao sionismo internacional, aos americanos imperialistas e aos ex-colonizadores anglo-franceses. Tais opiniões, no entanto, são fruto de processos e, principalmente, de propaganda ideológica recente; esse senso-comum, pautado por teorias conspiratórias e maniqueísmo político, não reflete a verdadeira natureza e relação cordial, sensitiva e profunda que pautou a relação Islâmico-Maçônica na maior parte de sua existência fora da Europa Ocidental.

Na realidade, não falamos aqui de relações islâmico-maçônicas, exclusivamente, mas também de cristo-maçônicas, judaico-maçônicas e até mesmo de alauiyah-maçônicas, uma vez que a Maçonaria, no seu espírito ecumênico e fraternal (tal qual o Islã), sempre reuniu as diversas religiões e etnias médio-orientais e asiáticas em torno da Fraternidade, da devoção ao Deus Único e do aprimoramento do indivíduo em prol do aprimoramento da sociedade. Veremos, aqui, que no Oriente Médio os maçons de todas as religiões foram membros ativos e bem-quistos da sociedade, trabalhando sempre em prol dos valores fundamentais da Obra: a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade, unidas estas virtudes pela perfectiva amarre toda sociedade saudável e moral: Deus. Tal compatibilidade de valores e crenças entre o Islã e a Maçonaria fizeram com que houvesse, mesmo, entre grandes mestres sufis e turuq (ordens sufis) uma espécie de sincretismo, especialmente naquelas turuq do Oriente Médio e do Império Otomano (tanto na Anatólia quanto nos Bálcãs e Levante). Tal compatibilidade se deve, além do match de valores e crenças (tal qual a unicidade de Deus e o altruísmo), pelas próprias origens da Maçonaria: muitos de seus símbolos, de seus elementos ritualísticos, de sua ciência de elevação anímica, derivam de símbolos e elementos médio-orientais que têm sua origem não apenas no passado pré-islâmico, majoritariamente judaico-egípcio da região, mas na própria ciência esotérica islâmica. Como? Através da Alquimia.

A Alquimia, como qualquer maçom regular ou pessoa que estudou a Fraternidade sabe, é um dos pilares da Ordem. Ela também, como podemos atestar através de autores clássicos que escreveram sobre o assunto, como Marcellin Berthelot (químico e político orientalista francês do século XIX), e também da análise direta de obras primárias, como por exemplo [ - ] de [fulano de tal] e tantas outras obras alquímicas daquele que é considerado a berço da alquimia ocidental – as abadias inglesas do século XI, XII e XIII, que, feitas a partir de manuscritos alquímicos arábicos (vindos em sua maioria do Al-Andalus ibérico), nos confirmam a origem árabe e islâmica inequívoca da ciência conhecida no Oriente Próximo como Al-Kimiyyah. Tão evidente era essa origem que os abades e monges que traduziam tais obras o faziam e o mantinham em segredo, para não sofrerem represálias (tais como excomunhão, na mais otimista das hipóteses) da Igreja Católica Romana (cuja exercício de um poder político intolerante, cruel e ditatorial sobre as mentes, almas e mãos de seus fiéis sempre configurou um grande inimigo da Obra e um dragão a ser abatido); em fato, as origens palpáveis pela historiografia moderna da Maçonaria (excluindo as origens místicas e lendárias) estão tanto nas Guildas de Pedreiros quanto nos monastérios.

Mais ainda, prosseguindo no tempo, temos no Império Otomano do século XVII, lar do Califado dos muçulmanos sunitas, também, o surgimento de uma outra grande influência não apenas na Maçonaria, mas em outras ordens que já vinham se formando desde o advento do Renascimento Europeu e o alvorecer da Era Moderna. Na metade do século XVII, despontou na cidade de Esmirna, na atual Turquia, um rabino judeu sefardita chamado Shabbetai Zvi. Carismático rabino e exímio cabalista, Zvi através do seu conhecimento esotérico e místico da Cabalá (principalmente da ciência mística das letras hebraicas) operava diversos milagres na comunidade local; um prodígio ordenado aos 18 anos, Zvi, no entanto, começou a ter um comportamento estranho com o passar do tempo. Não demorou muito para que se declarasse o Messias dos judeus e chamasse o povo de Israel para seu seguimento adiante uma nova Era Messiânica. Zvi, após receber em seu rebanho aquele que seria seu mais devoto discípulo, Natã de Gaza, fez um tour pelo Império Otomano quebrando normas Haláchicas (da Halachá, a Lei Mosaica) e operando feitos extraordinários em nome da Nova Era. Após dividir a judiaria num cisma (da qual ela não se recuperaria tão cedo), Zvi foi aprisionado pelo Vizir do Sultão Otomano que, querendo lhe pregar uma peça, o disse que, caso se não convertesse ao Islã, morreria. Zvi, com medo, converteu-se ao Islã, o que definitivamente encerrou sua curta Era Messiânica... ou não. A maior parte de seus seguidores retornaram, cabisbaixos e arrependidos, ao Judaísmo ortodoxo. Alguns se suicidaram. Outros, no entanto, fiéis a seu Messias, viram nisso um sinal – uma última prova –, e repetiram seu feito: milhares de sabateístas se converteram, então, ao Islã; estes conversos, que exteriormente praticavam o Islã mas internamente mantinham práticas judaicas à moda de Shabbetai, ficaram conhecidos como Dönmeh. Shabbetai e muitos de seus seguidores tiveram uma relação estreita e amigável com a ordem sufi Bektashiyyah. Esta informação nos será útil mais á frente, quando falarmos da relação entre a Maçonaria e o Sufismo.

Do Império Otomano, os ensinamentos e a Cabalá Sabateísta, isto é, a interpretação sabateísta da ciência mística da Cabalá, foram para os judeus da Europa Oriental e Alemanha. Lá, os judeus, na falta do Islã, se sentiram compelidos a se converterem ao Cristianismo – em particular ao Luteranismo, uma vez que este era bem mais receptivo ao misticismo –; foi o que aconteceu, por exemplo como Johann Kemper (Moshe ben Aharon HaKohen), um judeu sabateísta de Cracóvia, na Polônia, que se converteu ao Cristianismo Luterano e teceu comentário de ordem mística cristã-maçônica sobre as obras clássicas da Cabalá, como o Zohar. Essa interpretatio christiana marcaria o esoterismo hermético maçônico dos próximos séculos, no que pode ser definido como uma amálgama de Cabalá, Hermetismo, Cristianismo Esotérico herdado principalmente de tradições como a Irmandade do Espírito Livre e dos Rosacruzes, e de Alquimia islâmica. Esses sabateístas levaram a Cabalá de Zvi para as ordens iniciáticas que despontavam à época, no espaço de tempo entre o final do século XVII e o começo do XVIII (só lembrar que a primeira loja maçônica oficial foi aberta na Inglaterra em 1717), lançando as bases do que hoje é conhecido (e bem-presente) na Maçonaria como a Cabalá Hermética. Desse modo, podemos ter um pequeno vislumbre da grande importância que o Mundo Islâmico propriamente tem na constituição da Maçonaria enquanto ordem iniciática (assim como as turuqs).

Apesar de tudo isso, como foi dito no início do texto, a situação da Maçonaria no Mundo Islâmico, infelizmente, não é das melhores: além do preconceito do senso comum inspirado em propagandismo islamista e baathista (o “socialismo árabe” bem popular durante a Guerra Fria), a seita dos wahabbitas e dos salafistas (comuns nas monarquias do Golfo e na monarquia Saudita, que os financia no resto do mundo) têm alimentado esse sentimento. Por exemplo, não muito tempo atrás o "Colégio Jurisprudencial Islâmico", numa sessão em Meca, numa decisão claramente absurda e parcial (como todas aquelas vindas dos salafi-wahabbitas) declarou a Maçonaria como entidade ligado ao Judaísmo e ao Sionismo e com propósitos subversivos e sinistros, declarando-os agentes do ‘maligno’ e da heresia, barrando muçulmanos de entrarem, declarando os muçulmanos que forem maçons como "descrentes" e "apóstatas".

Essas desconfianças têm carga teológica (advinda do radicalismo tosco salafi-wahabbita) sim, mas, também, têm política envolvida: todos sabemos que muitos ramos da Maçonaria (que não é unificada, vale lembrar, mas é constituída de várias instituições) sempre esteve envolvida em políticas, apesar de muitos ramos declararem-se apolíticos. Na França, protagonizaram a Revolução Francesa e o advento do laicismo, isto é, a diminuição do tirânico poder da Igreja; na América Latina, não apenas foram responsáveis pelas independências como também sempre adotaram posturas anti-clericais -  não por “ódio a Deus” como os detratores gostam de pontuar –, mas por, acima de tudo, defender a liberdade civil, política e religiosa – coisas que a Igreja sempre custou a aceitar –. Além disso, há também a questão do simbolismo e ritualismo mal-interpretado e do ecumenismo (coisa que os salafis-wahabbis repudiam veementemente).

Esta situação, inclusive se repetiria no Oriente Médio, cujas origens da Maçonaria por lá remontam ao início das expedições orientalistas e da própria colonização europeia. A primeira loja no OM foi de rito escocês, fundada em Áden (Iêmen) em 1850. Atualmente poucas lojas restam, a mais antiga delas ainda ativa é uma escocesa na Jordânia, fundada em 1925. A grande maioria das lojas foram fundadas sob os auspícios das Obediências da Grã-Bretanha, França e da Itália. No entanto, a Maçonaria tentou crescer no mundo árabe. Durante a última metade do século XIX, a Maçonaria foi significativa no Oriente Médio, particularmente no Império Otomano. Além disso, a tradição árabe foi abraçada na busca de legitimidade ritualística: uma autoridade maçônica afirmou que os quraysh, a tribo guardiã de Meca e da Caaba, bem como a tribo do próprio Profeta Muhammad (sas), guardiões da sagrada kaacba em Meca eram membros da Obra Maçônica. Verdade ou não, a seguir, veremos as histórias incríveis e verídicas dos quatro países onde a Franco-maçonaria mais prosperou.

Síria

A Maçonaria Síria começou em 1868, com um orientalista americano chamado Robert Morris, membro de uma loja regular do estado do Kentucky, viajando para a Síria buscando estabelecer uma Obediência regular ali. Uma vez em Damasco, foi guiado pelo Emir Abdul Qadir al-Jaza’iri– um santo sufi da ordem Qadiriyyah e herói de resistência anticolonial argelino –, que era maçom (ele o cumprimentou com o toque secreto, inclusive), à presença do governador otomano de Damasco, Mehmed Rashid Pasha, também um maçom. Apesar de haverem maçons turcos, árabes, e muçulmanos, não havia ainda no Levante uma Obediência maçônica regular, nem uma Loja regular. Juntos, então, eles fizeram a primeira do Levante e da Síria. A data da cerimônia de inauguração da Obra na Síria, realizada com o patrocínio de Rashid Pasha, com um Alcorão e uma Bíblia como livros da lei, num 7 de abril, é icônica na história da Síria. Foi o dia em que a Maçonaria baseada em Damasco nasceu em 1868 e também foi o dia em que o Baathismo viu seu nascimento setenta e nove anos depois, também em Damasco. Foi o Baathismo que invadiu e acabou destruindo a Maçonaria de Damasco, em 1965. Entre os homens na cerimônia estavam Nazif Meshaka, filho de uma rica família cristã, que servia como secretário do vice-cônsul americano em Damasco, e Mohammad Ali Mahasin, um notável de uma grande e proeminente família muçulmana sunita de Damasco que também era secretário do Supremo Tribunal Otomano da cidade. Os notáveis ​​argelinos muçulmanos baseados em Damasco Muhiddine el-Djezairi e Mohammad el-Djezairi, filhos do Emir Abdul Qadir supracitado, também estiveram presentes.

Umas da mais antigas e prósperas lojas de Damasco, a “joia da Maçonaria no Oriente”, a Qassion, foi nomeada em homenagem à uma antiga montanha com vista para Damasco, em cujas encostas se encontra uma misteriosa caverna. Segundo a tradição, este é o lugar onde Adão viveu com seu filho mais velho Caim e seu filho mais novo Abel, uma história contada tanto na Bíblia hebraica quanto no Alcorão. Os dois irmãos fizeram sacrifícios a Deus. Quando Deus aceitou o sacrifício do jovem Abel e rejeitou o de Caim, este assassinou Abel... e a história humana começou.

Os maçons, mais uma vez demonstrando seu ímpeto de justiça social e amor à pátria, aprovaram resoluções estrondosas sobre a necessidade de combater o colonialismo francês e criar um Estado maçônico no mundo árabe. Eles não mencionaram como os não-maçons seriam tratados se tal entidade visse a luz do dia.  Um maçom xiita chamado Wajih Baydoun, por exemplo, escreveu um ensaio em fevereiro de 1937 dizendo: “A Maçonaria nestas terras foi corrompida ao máximo [pelo domínio francês]”. Em julho de 1920, o maçom Ata al-Ayyubi tornou-se ministro do Interior, ocupando o cargo no após a ocupação francesa da Síria. Ayyubi estabeleceu ligações com nacionalistas locais e contrabandeou armas e fundos para um rebelde alauíta chamado Saleh al-Ali, que iniciou uma revolta no litoral sírio (região de maioria alauíta) contra a França, e também para Ibrahim Hananu, líder da revolta de Aleppo. Ayyubi também deu passos sócio-políticos importantes, como introduzir extintores de incêndio no Ministério do Interior e torná-los obrigatórios em todos os locais públicos de Damasco, e implementar o sistema de bônus para a polícia, mostrando o melhor que um maçom pode oferecer á vida social e política de seu país, mesmo em contexto adverso. Sua atividade nacionalista era uma ampla prova de que os maçons eram patriotas declarados e inimigos ferrenhos do regime de mandato colonial ao invés de serem meros fantoches, como a França tentava a tempos fazer da Maçonaria oriental.

Os maçons sírios não odiavam a França apenas por sua tirania colonial, mas também por seu Grande Oriente estar sempre tentando minar – a serviço do Palácio do Eliseu –, ou tomar controle, da Maçonaria local. Em 1923, trinta lojas foram registradas na Síria e no Líbano, com um total de 15.000 maçons – 7.000 só em Damasco –. A maioria das lojas ficavam perto da Grande Mesquita Omíada - o túmulo do profeta Yahya (conhecido na tradição cristã como João Batista).

Após a independência da Síria – orquestrada por maçons, para variar um pouco! –, a cena política da Síria foi dominada por maçons até 1958. O presidente sírio Adib al-Shishakli, arquiteto de três golpes de estado na década de 50, governou a Síria entre 1951-1954. Seu companheiro, o general al-Fezu, também presidente da Síria na mesma década, também era maçom. Um outro nacionalista sírio e figura política importante, inclusive na independência siria, foi o político Antune Saadeh. Saadeh era um nacionalista sírio secular que se recusava a respeitar as divisões sectárias do poder ou a aceitar as fronteiras da Síria moderna. Foi extraditado na década de 60 para o Líbano, onde foi executado. O oficial libanês que ordenou a execução foi o primeiro-ministro Riad al-Sulh, também maçom. Sulh era um nacionalista libanês e um dos pais fundadores de seu país, agora que era independente da França. Ele havia negociado pessoalmente seu Pacto Nacional com o presidente Khoury, um acordo de cavalheiros que dava a presidência libanesa a um muçulmano sunita, a presidência da câmara a um xiita e a presidência do país a um cristão maronita. Outra grande personalidade maçônica síria que reforça as contribuições sociais e científicas da Maçonaria foi Riad Said, fundador e primeiro reitor da Universidade de Damasco.

Na Síria, em 1958, o chefe da inteligência al-Sarraj e seu correligionário al-Hawrani eram anti-maçons virulentos. Chegaram aos ouvidos dos Veneráveis Mestres de Damasco que ambos estavam planejando batidas nas lojas e confisco de propriedade para, efetivamente, destruir a Maçonaria Síria e encarcerar seus membros. A solução encontrada pelos irmãos maçons foi antecipar-se à dupla: eles mesmo fecharam suas lojas e destruíram a grande maioria de seus documentos. Em 1982, durante a Revolta Islamista na Síria, encabeçada pela Irmandade Muçulmana, Bader al-Din Shallah - um conhecido e influente maçom de alto grau - ajudou o presidente Hafez al-Assad indo falar pessoalmente com seus correligionários comerciantes sunitas comerciantes para convencê-los a não apoiarem a greve-geral que antecedeu o levante armado. Apesar da gratidão eterna de Hafez - e do ódio eterno da Irmandade Muçulmana -, a Maçonaria Síria já estava virtualmente inoperante e inexistente à essa altura, uma vez que em 1965, o primeiro governante baathista da Síria, General Amin al-Hafez, baniu a Maçonaria, oficialmente. Daí, ela se dispersou e destruiu os poucos documentos que restavam. Essa decisão foi tomada pois, m 10 de agosto de 1965, apenas três meses após a execução o espião israelense no Egito Eli Cohen - um maçom -, a Maçonaria foi proibida em toda a Síria, uma decisão aprovada pelo Conselho Presidencial. O decreto foi publicado no porta-voz oficial do Partido Baath, al-Baath. Os maçons eram os culpados por todos os males na Síria desde 1948. Para o presidente Amin al-Hafez - tentando salvar sua reputação pessoal – a ele, parecia a única coisa lógica a fazer. A Maçonaria síria, até hoje, não se recuperou.

Egito

A Maçonaria Egípcia tem sua origem histórica no século XIX, com o estabelecimento de lojas pelos britânicos que formariam o Grande Oriente do Egito. Em lendas maçônicas, no entanto, a Maçonaria surgiu no Egito (ou, ao menos, lá surgiu seu segredo), como diz Hermes Trismegisto: "no Egito antes da areia". Estiveram envolvidos na Maçonaria egípcia figuras da independência e da monarquia egípcia (que assumiu após a independência, feita com o apoio da Inglaterra), como os próprios membros da família real, como Ismail Pasha (antigo 'khedive', espécie de vice-rei otomano do Egito) e o Rei Farouq I do Egito. A situação para os maçons começou a ficar tensa na década de 50, com o Golpe de Estado dos generais baathistas liderados por Gamal Abdel Nasser que depuseram o Rei e instituíram uma República autoritária em 1952. Após anunciar a nacionalização do Canal de Suez, uma coligação entre Grã-Bretanha, França e Israel foi feita para invadir o Canal e o Sinal. Após falharem, Nasser expulsou os estrangeiros, o que diminuiu o número de maçons no país. A desconfiança de Nasser com a Maçonaria, a partir disso, só vinha aumentando cada vez mais. A gota d'água para o ditador foi quando, em 1964, um espião israelense pertencente a uma loja egípcia, o judeu egípcio Eli Cohen, foi descoberto e executado. Isso levou Nasser a proibir e desmantelar a Maçonaria do país.

Líbano

O Líbano tem uma longa história maçônica. A Grande Loja da Escócia e a Grande Loja de Nova York geralmente governam a maioria das lojas regulares localizadas no país. A primeira Loja Maçônica a ser erguido no Líbano foi fundado pela Grande Loja da Escócia em 1861 e recebeu o nome Loja Palestina No. 415. Esta loja estava operando em Beirute, mas ficou inativa em 1895. Quatro outras lojas escocesas foram erguidas no Líbano até a época da Primeira Guerra Mundial, mas apenas algumas destes reviveu após a guerra. O  Grande Oriente da França fundou uma loja em 1869, com rito em árabe. Seguiram-se mais duas lojas. Nenhuma sobreviveu à Primeira Guerra Mundial.

Outras novas lojas formadas antes da Grande Guerra foram as lojas de Beirute sob a Grande Loja da Turquia, e uma loja sob a Grande Loja Nacional do Egito, erigida por volta de 1914. Várias outras Lojas Egípcias autorizadas foram fundadas posteriormente, e após a Primeira Guerra Mundial estas foram formadas em um Distrito. No final da Segunda Guerra Mundial, parece que essas lojas foram extintas, fundidas ou alojadas em vários corpos “maçônicos” espúrios.

Em Nova York, foi formada a Loja Sírio-Americana, em 1924, por imigrantes libaneses americanos. Várias outras lojas foram erguidas antes da Segunda Guerra Mundial e depois. Com exceção de uma loja originalmente erigida na Síria, todas as lojas fretadas de Nova York em seu distrito Síria-Líbano (doze no total) continuaram a operar em situação regular nos últimos tempos.

Grandes personalidades libanesas que foram maçons incluem Riad as-Sulh, que foi o primeiro primeiro-ministro do Líbano (1943-1945), após a independência do país (a qual protagonizou) e, como todos os seus sucessores como primeiro-ministro do Líbano, era muçulmano sunita. Da mesma família dos Sulh, vinha outro primeiro-ministro, Rashid el-Sulh. Havia também um cristão maronita que, quiçá, é um dos mais famosos libaneses: o político, gângster e miliciano Bashir Gemayel, eleito presidente do Líbano em 1982, no meio da Guerra Civil (ao qual liderava um grupo de inspiração fascista cristão chamado  Kataeb, ou “Falanges Libanesas”); foi impedido de assumir por ocasião de seu assassinato a bomba, ainda em 1982.

Turquia

A Maçonaria na Turquia tem suas origens no antigo Império Otomano. Há documentações que mostra a presença e operação de lojas desde o ano de 1738, na Anatólia. As lojas continuaram a florescer até o dia 16 de Junho de 1826, quando o Sultão Mahmud II decretou a extinção e prisão dos Janissários, a antiga “tropa de elite” otomana que havia acumulado enorme poder político no Império; junto deles, foi proibida e perseguida a já referenciada ordem sufi Bektashi, que havia de certa forma se tornado a “ordem sufi oficial” dos janízaros. O que isso tem a ver com a Maçonaria? O fato de que, por algum motivo, as autoridades otomanas e a ulemás sunita ortodoxa considerarem a Maçonaria uma espécie de Bektashismo; isto é, que a Maçonaria era parte ou um braço da tariqa Bektashi. Desse modo, a Maçonaria foi perseguida até que, após a Guerra da Criméia em 1856, a Obra voltou a florescer com o aval do governo otomano e apoio do governo britânico, especialmente do então embaixador britânico Lord Bulwer, que ajudou na organização do Grande Oriente no Império. Entre 1860 e 1870 as lojas eram abertas como flores desabrocham na Primavera e, foi durante o reinado do Sultão e Califa Abdülhamid II, um sufi devoto, que a Maçonaria floresceu não apenas na Turquia, mas também no Oriente Médio, á época governado pela Sublime Porta.

A compatibilidade de valores esotéricos, morais e a mandatória lealdade dos maçons para com as leis de seu país fizeram que Abdulhamid caísse em amores com a Maçonaria – um amor um tanto quanto desconfiado, todavia. Embora nada menos do que três de seus irmãos fossem maçons, assim como também o era  seu grão-vizir Midhat Pasha, o próprio Abdulhamid tinha pouca afeição pela Maçonaria. Alguns dos jovens oficiais que deram um golpe em 1907 e restringiram seus poderes eram maçons bem conhecidos. Apesar disso, Abdulhamid, sem entusiasmo, permitiu que Fraternidade operasse em seu território, impressionado com seu apoio declarado ao estado. Ele e seus conselheiros esperavam que essa lealdade pudesse ser de alguma forma manipulada e transformada em lealdade ao próprio Sultão.

A Maçonaria turca passou pela Primeira Guerra Mundial e pela desintegração do Império Otomano relativamente bem, até 1935, quando a situação política de opressão por parte do governo da República Turca (que havia banido as ordens sufis) forçou o Conselho Supremo da Turquia a entrar em um estado de hibernação. Esse período de estafa só foi encerrado em 1948, até que em 1956 a Grande Loja da Turquia foi fundada e reconhecida e consagrada pela Grande Loja da Escócia em 1965. Desde então, a Maçonaria turca se tornou a mais numerosa e bem-sucedida num país de maioria muçulmana até hoje

A Maçonaria e o Sufismo

A conexão bektashi:

Um dos motivos que alguém pode ligar ao sucesso da Maçonaria na Turquia pode ser o fato de que a nação turca é, historicamente e espiritualmente, dado ao misticismo e à devoção esotérica. Isso pode ser visto no fato de ser o país com a maior diversidade e proeminência de turuqs, as ordens sufis de misticismo islâmico, do Mundo. A Maçonaria, então, tem muitos pontos em comum com as turuq: segredos, devoção a um Único Deus Criador, altruísmo e rituais (embora de maneiras diferenciadas, claramente) que elevam a alma humana em sua potência (no sentido aristotélico da palavra) para mais próximo do Criador.

Uma dessas ordens sufis é a Bektashiyyah, a qual já citamos no texto. A tariqa bektashi tem crenças heterodoxas e práticas – inclusive rituais – não-convencionais e que não têm paralelo algum no resto das turuq. Na realidade, é bem curioso notar que as autoridades temporais e religiosas do Império Otomano no início do século XIX tivessem a visão do Bektashismo e da Maçonaria como “a mesma coisa”, uma vez que muitos rituais bektashis – especialmente o de iniciação do murid –, têm elementos simbólicos idênticos à cerimônia de iniciação maçônica. Além disso, os bektashis também tem um misticismo em comum: a bektashiyyah foi influenciado tanto pelos “cabalistas muçulmanos” Hufuriyyah de Fazlullah al-Astarabadi quanto, possivelmente, pelos sabateístas com sua Cabalá. Desse modo, é curioso que exista tanta reciprocidade não apenas de elementos, mas de doutrinas (que não irei explicitar muito aqui), tais como a deificação do homem através dos ritos e o alcance da gnose esotérica através da purificação da alma ainda em vida pelo conjunto entre rito e conhecimento.

Um ocultista alemão chamado Sebotendorff, fugindo da mobilização militar em seu país natal, acabou encontrando refúgio em suas andanças no coração da Anatólia otomana. Lá, foi acolhido e apadrinhado por o que ele descreveu como “uma família de judeus maçons que, querendo me ensinar as antigas práticas dos maçons sufis da Turquia, me levaram para ser iniciado na Ordem Bektashi.”, que incluem exercícios alquímicos cabalistas, de meditação em letras do abjad (alfabeto árabe) e outras práticas pouco convencionais ao sufismo mais ortodoxo. Parece que o cerco está se fechando para nossos amigos sufis bektashis, não? De qualquer forma, o relato de Sebotendorff, crível ou não, é bem plausível se formos analisar a história e as convergências que há entre as duas ordens esotéricas.

Mestres Sufis, mestres Maçons:

A relação da Maçonaria com o Sufismo Islâmico, no entanto, não para por aí: muitos mestres sufis de ordens mais ortodoxas foram, também maçons, tais quais o Emir argelino ʿAbd al-Qādir al-Jazāʾirī (1808-1883). Sim, é o mesmo Emir que citei mais acima, que levou o maçom americano até o governador de Damasco. Um muçulmano erudito, sufi da ordem Qādiriyyah, ele liderou a luta contra a ocupação francesa da Argélia e combateu ferozmente os colonizadores por muitos anos antes de se render em 1847. Impressionados com sua bravura e curiosos com seu sufismo, a loja Henrique IV no Oriente de Paris o convidou para se juntar ao fraternidade maçônica, mas por causa de dificuldades não especificadas em fazê-lo na França, eles pediram à loja Les Pyramides de Alexandria, no Egito, para realizar sua iniciação. A loja aceitou, e Abdul Qadir foi iniciado lá em 18 de junho de 1864, apenas quatro anos antes de colaborar na fundação da Obediência da Síria.

Outro exemplo do encontro entre a dimensão esotérica Sufi e a Maçonaria é o de Jamal al-Din al-Afghani. Apesar de seu nome, ele não nasceu no Afeganistão, mas no Irã (e também não era não era sunita, mas xiita). Várias fontes persas dizem que ele recebeu educação em disciplinas islâmicas, em filósofos muçulmanos e em misticismo. Depois de ter ficado na Índia e em Istambul, passou os anos de 1871 a 1879 no Egito, onde iniciou sua atividade política contra o imperialismo e a favor das reformas liberais. No Cairo, começou a ensinar ciências religiosas, filosofia, lógica, sufismo e literatura árabe em al-Azhar, a mais prestigiosa universidade islâmica do Oriente Médio. Devido à sua abordagem intelectual progressista e racionalista, juntamente com a sua oposição ao imperialismo e ao seu ativismo político, al-Afghānī é considerado um dos atores mais eficazes na mudança cultural e ideológica no Levante no final do século XIX. Ele é conhecido principalmente por seu compromisso político, mas seus esforços reformistas provavelmente também encontrou terreno fértil para a renovação racionalista em sua dimensão sufi pessoal.

Foi visto como, na Turquia, a política, o Sufismo e a Maçonaria chegaram mais perto do alvorecer do século XX, quando muitos Jovens Turcos, muitas vezes afiliados Bektashis, se juntaram a lojas maçônicas. Nesse contexto, uma figura de destaque foi o político e intelectual Riza Tevfik (1868-1949). Nascido em uma família bektashi do norte da Albânia. Tevfīk passou sua juventude em Edirne, Istambul, Izmir e Gallipoli (Gelibolu); nesta última cidade, quando jovem, teve contato pela primeira vez com o misticismo turco das irmandades populares e, graças aos dervixes rodopiantes da ordem sufi Mevleviyyah que conheceu no convento de Hüssameddin, leu a famosa obra do Masnavi de Jalal ud-Din Rumi.

Tevfik considerava-se a si mesmo um “filósofo” e estava profundamente imerso na cultura mística de seu tempo como sufi – era um baba da Bektashiyya e frequentemente participava de reuniões e conventos da ordem (como poeta, era famoso por suas composições místicas, também cantadas por dervixes) – e acreditava que havia vários pontos de contato entre o Sufismo e a Maçonaria. Uma das analogias que ele notou foi certamente a vocação para envolvimento político que ambas as instituições manifestaram – especialmente o movimento sufi Melamiyyah –, mas alguns de seus artigos mostram claramente que ele sentia que a iniciação maçônica pouco diferia do modo sufi.

Conclusão

Com esse singelo texto, pudemos delinear um pouco da história, de personalidades, de contribuições, divergências e, até mesmo e discordâncias entre o mundo do Islã e o mundo da Franco-maçonaria. Como também já foi dito no texto, hoje a Maçonaria no mundo islâmico é débil, até clandestina. No Irã a Maçonaria foi destruída pela Revolução Islâmica, e o destino dos quase 1.100 maçons que lá haviam em 1978, não sabemos. Na Arábia Saudita, o fluxo de estrangeiros tem ajudado a organização de lojas maçônicas, apesar do banimento da Maçonaria por parte do governo e oposição e suspeita dos muçulmanos conservadores. No geral, em países como Síria, Iraque, Irã, Arábia Saudita, a Maçonaria é vista como pró-sionismo, filo-judaica, pró-americana e pró-ocidente, sempre conspirando contra as religiões do Mundo. Os únicos países realmente amigáveis são países como Marrocos, Tunísia e Jordânia. A Jordânia, inclusive, teve dois reis maçons: o rei Hussein bin Talal (1935–1999) e o atual rei, Abdullah II bin Al-Hussein. Desse modo, fica claro para nós que, apesar da situação irônica, o Oriente deve tanto para a Maçonaria quanto a Maçonaria deve ao Oriente.

Bibliografia:

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